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Entrevista - Carlos Maltz
Todos os humanos são manos

  Após sua saída dos Engenheiros do Hawaii, Carlos Maltz já fez muito: lançou um disco com a banda Irmandade, abriu um consultório de astrologia e hoje mora numa chácara em Brasília, mais perto do estilo de vida que busca. Foi de sua casa que ele conversou com a gente, pelo telefone, e falou sobre seu disco novo, sua saída dos Engenheiros e sua amizade com Humberto Gessinger, astrologia, Renato Russo e sobre o fim do mundo.  

Roquenrou - Seu novo disco, o Farinha do Mesmo Saco, foi gravado aos poucos, com gravações em 1997 e 2001. Mas apesar disso o CD tem uma unidade muito grande, parecendo ter um conceito bem definido...

Carlos Maltz - Exatamente. Na verdade tem uma colagem de três momentos diferentes, mas existe isso aí mesmo que você falou, tem uma unidade no trabalho, porque desde que eu comecei com este trabalho em 1995, até agora, este é um trabalho que tem um norte ideológico conceitual. Isso é uma coisa que, sei lá, pra gente lá nos Engenheiros era uma coisa comum. A gente cresceu ouvindo Pink Floyd, Zeppelin, tinha isso, era comum naquela época...

Roquenrou - De ter um conceito, de ter continuidade...

Carlos Maltz - É, hoje em dias as pessoas acham isso: "Oh, que coisa, um conceito", e tal... mas isso era uma coisa muito comum nos anos 70, né?

Roquenrou - Tem coisa da Irmandade, também, nesse CD? [A Irmandade foi a banda que o Maltz formou após a sua saída dos Engenheiros do Hawaii]

Carlos Maltz - Tem, tem coisa da Irmandade, por exemplo, gravação... gravação da Irmandade é Anjos de Metal. Essa aí é a gravação do disco da Irmandade, mesmo, é a gravação original. É com a banda, e tal, tem os backings, toda aquela parada da Irmandade. Essa música eu acho que o som dela é bem diferente, inclusive, do resto do disco, até mesmo porque nem sou eu que tô tocando bateria nessa faixa.

Roquenrou - Mas você não toca bateria em todas as outras faixas...

Carlos Maltz - Eu toco bateria em todas, a não ser Passos do Mundo, que é um sample de batera, e Outra Vez Nós Dois também.

Roquenrou - No CD tem uma versão diferente da gravada pelos Engenheiros de Castelo dos Destinos Cruzados, e eu achei mais legal...

Carlos Maltz - Essa versão é a versão original.

Roquenrou - Ah, é!? É a versão original?

Carlos Maltz - É. Ela era assim. Mas aí foi o seguinte: Ela não ia entrar no disco [Simples de Coração, dos Engenheiros] porque já tinha muita balada. Aí eu mudei ela pra ela entrar.

Roquenrou - Quando foi que você se deu conta de que queria passar suas próprias mensagens nas letras de música?

Carlos Maltz - Isso foi em 94, 95, e foi o que deu origem à toda a nossa briga, porque eu já tava seguindo o meu caminho, estudando astrologia, Jung [1875-1961, psiquiatra e psicanalista suíço], enfim, seguindo por esse caminho mais espiritualista, então chegou uma hora em que eu falei assim: "Meu, esse papo aqui não tem nada a ver". Comecei a achar que o papo dos Engenheiros não tinha mais nada a ver, mas não tinha mais nada a ver comigo.

Roquenrou - Mas você diz em termos de letras, mesmo?

Carlos Maltz - Em termos de letras, mensagens, mesmo. Então eu achei que já tava repetitivo e era um papo muito existencialista, tá entendendo? "Coitadinho de mim..." Então eu comecei a entrar em choque com esse tipo de coisa. Então eu falei: "Ó, não adianta eu ficar só criticando. Eu vou começar a fazer letra". Então eu fiz O Castelo dos Destinos Cruzados.

Roquenrou - Ah, isso foi então nesse período intermediário, entre o Filmes de Guerra, Canções de Amor e o Simples de Coração...

Carlos Maltz - Foi, foi. Isso, 94, 95, foi aí que eu comecei com essas histórias. E aí deu o maior rolo, porque não tinha nada a ver com a linha do grupo, e não-sei-quê, tal... Foi a primeira vez que tinha uma letra num disco dos Engenheiros do Hawaii que não era do Humberto. A não ser Era um Garoto, que era um cover, né?

Roquenrou - Mas o Humberto teve alguma restrição clara com isso?

Carlos Maltz - Teve, bah, nossa senhora! Foi quebra pau, mesmo, cara! Ele fazia protesto, não tocava a música, tocava olhando pro chão, era uma coisa, assim... dramática! Era uma briga de ego, mesmo.

Roquenrou - E é interessante que hoje a gente vê que vocês estão na boa...

Carlos Maltz - Graças a Deus, rapaz! É...todo esse Farinha do Mesmo Saco existe porque ele tava lá junto. O cara tocou, ajudou a produzir e ainda patrocinou o CD!

Roquenrou - Ah, é?

Carlos Maltz - É, deu uma força até aí, também!

Roquenrou - Mas ele produziu mais as faixas gravadas em 2001, ou não?

Carlos Maltz - É, na verdade foi uma co-produção. Ele trabalhou... foi em 2001, é - nas faixas anteriores ele não chegou a tocar -, então quando a gente fez as faixas de 2001, a gente fez uma co-produção... no caso foi eu e ele - pessoas que tocaram -, mais o Fábio Tabach e o Rodrigo Kuster, que são os caras da Rock House, lá do Rio de Janeiro, que estão comigo desde 95, também... o Guto Dufrayer, são caras que estão comigo desde aquela época, estão apostando no meu trabalho sem terem ganhado um puto ainda, desde 95.

Roquenrou - Teve algum acontecimento específico que fez você e o Humberto voltarem a se falar?

Carlos Maltz - Tem, tem. Isso aí tá tudo contado timtim por timtim lá no fórum do meu site, num tópico que se chama "Se a coisa ficar preta o negócio é aquele chá". Tá toda a história contada lá.

Roquenrou - Isso a gente não chegou a ver no seu site...

Carlos Maltz - Vai lá no fórum. Tem a ver com religião e tal, com umas paradas minhas. Então lá tá contando tudo direitinho como é que aconteceu.

Roquenrou - O Farinha é um disco independente. Como vai ser a divulgação do CD?

Carlos Maltz - Bom, tá sendo da seguinte maneira: tem um monte de gente... É que esse trabalho é um trabalho que rola pra frente porque tem muito amigo, muita gente que é simpatizante, é um negócio meio PT, no começo, assim, sabe? Então o cara mora lá em Fortaleza e fala assim: "Pô, me manda um CD aí pra eu levar na rádio não-sei-qual... Aí eu mando o CD lá pro cara. Tá funcionando dessa maneira.

Roquenrou - E você acha que é possível viver de música sem uma gravadora por trás?

Carlos Maltz - Bom, eu não vivo de música, só, né?

Roquenrou - Você continua exercendo astrologia?

Carlos Maltz - É, o meu principal hoje em dia é a astrologia. Eu vivo disso, tenho consultório aqui em Brasília. Modéstia à parte sou bom nesse negócio aí, sabe? Então eu vivo disso, e fazendo a música aí também, né?

Roquenrou - Como é que é assumir os vocais?

Carlos Maltz - Ó, cara, agora até que já tá mais tranqüilo. No começo foi foda, porque a minha voz é de baixo profundo, então no primeiro disco da Irmandade tivemos que afinar tudo um tom abaixo. Eu vinha aprendendo a cantar, fazendo aula e tal pra conseguir dar o recado. Eu nunca tive muitas pretensões de cantar, mas com as coisas que eu escrevo... eu penso que o principal que eu faço é escrever, então pra cantar as coisas que eu tô falando tem que ser eu mesmo, porque é uma coisa muito pessoal. Então tem que ser eu, então eu fui cantar por causa disso, como uma coisa funcional.

Roquenrou - Você ainda tá tocando bateria nos shows?

Carlos Maltz - No momento não porque eu canto, né?

Roquenrou - Você está exclusivamente lá na frente, não tem nenhuma música em que você vai pra bateria?

Carlos Maltz - Não, se a gente for fazer uma turnê aí vamos botar, sim. Porque eu gosto de tocar bateria. Eu fico mais à vontade tocando bateria do que cantando.

Roquenrou - Você tá fazendo shows? Como é que tá sendo?

Carlos Maltz - A gente faz show, mas não é tipo turnê, assim. Eu faço show aqui, faço outro ali... se convida eu vou lá, faço só violão, faço com banda... Agora tá rolando uma oportunidade de fazer uma mini-turnê no Japão. Porque tem um CD que foi pra lá, não sei quem que levou, tem uma rádio lá que é da comunidade brasileira, então parece que tá tocando duas, três músicas lá.

Roquenrou - E aí você dizer que era dos Engenheiros também ajuda, né?

Carlos Maltz - Sem dúvida nenhuma, claro!

Roquenrou - Aliás, em todos os casos isso ajuda, não é?

Carlos Maltz - Mais ou menos, quer dizer, na minha profissão de astrólogo atrapalha. Porque o povo não me leva muito à sério em princípio. Quando falam assim: "Ah, é uma palestra aqui com o astrólogo Carlos Maltz, aqui de Brasília, que era integrante dos Engenheiros do Hawaii", a comunidade astrológica já acha que eu sou picareta, né, pô! "O cara é roqueiro"... Mas aí a gente começa a falar, já vê que a gente não tá de brincadeira nesse negócio aí não.

Roquenrou - E como é que tá a receptividade do público?

Carlos Maltz - Rapaz, ó, tá me surpreendendo muito, porque o público que tá comprando no momento é de fãs dos Engenheiros, então ali tá sendo muito boa e tal. Ali a gente já imaginava que podia ter uma receptividade boa, tem a participação do Humberto, essas coisas... É um disco que soa super Engenheiros, então os fãs estão delirando, porque estão com saudades, tal...

Roquenrou - Até porque é uma sonoridade dos Engenheiros que até os Engenheiros não fazem mais, né?

Carlos Maltz - Não fazem mais. É mais Engenheiros que os Engenheiros! Até porque tem o Humberto tocando baixo e guitarra no mesmo disco, né? O que nos discos dos Engenheiros nunca teve! Mas eu tô surpreso com a resposta da crítica, porque os Engenheiros sempre foram massacrados pela crítica, e eu agora venho com esse papo espiritualista, eu digo "meu, os caras vão cair matando"! E só veio crítica boa, falando bem... Eu tô muito surpreso com isso.

Roquenrou - O Humberto participa de alguns shows?

Carlos Maltz - É, bom, a gente já fez abertura de vários shows dos Engenheiros. Aí vai lá, ele toca uma música com a gente. Até a gente tá fazendo algumas músicas aí por e-mail também, né?...

Roquenrou - É, é o caso da E-stória, né? [E-stória é uma parceria Gessinger/Maltz gravada no "Surfando Karmas & DNA", dos Engenheiros]

Carlos Maltz - É, a gente fez a E-stória, tem um outra que se chama <I>Segunda-feira Blues</i>"...

Roquenrou - Ah, essa daí a gente pegou vocês fazendo no show, cara...

Carlos Maltz - Você tava lá?

Roquenrou - Eu, tava, foi aqui em São Paulo... Foi durante a Copa do Mundo...

Carlos Maltz - É, esse daí mesmo... E a gente tá fazendo uns negócios aí...

Roquenrou - A E-stória foi o que te incentivou a voltar à música ou foi uma fotografia do que já tava rolando?

Carlos Maltz - Já tava rolando, porque a E-stória foi depois do Farinha.

Roquenrou - Você já tava com ele pronto?

Carlos Maltz - O Farinha tá pronto desde julho de 2001, foi um disco feito em horários que estavam sobrando dentro do estúdio...

Roquenrou - E como foi participar de um disco dos Engenheiros agora não mais como baterista, mas como compositor e dividindo os vocais?

Carlos Maltz - Foi uma continuação do Farinha...

Roquenrou - Você encara mais como uma continuação do Farinha, mesmo?

Carlos Maltz - Eu encaro assim. Porque na verdade Engenheiros é o quê? É o Humberto, né? Então não tinha aquela coisa de banda. Cheguei lá encontrei o Humberto e o Alexandre Alves, que é técnico de som, que são pessoas que eu já conheço desde a idade da pedra, então foi uma coisa que foi assim, como se tivéssemos dando uma continuação do que a gente tava fazendo no Farinha, porque o clima, a energia, na gravação do Farinha foi muito legal, foi muito descontraída, e é uma coisa que passa no disco. Nos discos dos Engenheiros era muito tensa a gravação.

Roquenrou - Mas isso mesmo na época...

Carlos Maltz - Isso, naquela época mesmo que eu tô falando... Era muito tenso tudo...

Roquenrou - É uma coisa que você comentou nesse release, que na época do Simples de Coração vocês estavam parecendo mais um bando que uma banda...

Carlos Maltz - Não, não, ali já era outro problema. Mas vamos dizer assim... no tempo do GLM[Gessinger, Licks & Maltz], mesmo. Sempre foi muito tensa a gravação. Os Engenheiros sempre foram uma coisa muito tensa, muito séria, e tal...

Roquenrou - Não é o que parece, pois sempre tem algumas brincadeiras...

Carlos Maltz - É, mas o clima era pesado. Mas agora a gente tava numa onda bem mais leve, sabe?

Roquenrou - Deu pra curtir muito mais...

Carlos Maltz - Deu, deu. Foi muito mais tranquilo.

Roquenrou - E hoje você é amigo do Augusto Licks, cara?

Carlos Maltz - Não, o Augusto Licks eu nunca mais vi, cara. Desde quando a gente se separou eu nunca mais vi. Nem sei o paradeiro dele, não sei, é uma pessoa que desapareceu do mapa. É difícil, eu já tentei até encontrar e tal, mas é difícil...

Roquenrou - A impressão que passa é que vocês tinham um relacionamento mais profissional com ele...

Carlos Maltz - Na verdade a gente não era amigo. Nem com o Humberto não era. Porque eu e o Humberto éramos colegas de faculdade, mas um não ia com a cara do outro, não. Nós éramos colegas, aí fizemos um show só...

Roquenrou - Vocês precisaram ficar longe pra ficarem amigos...

Carlos Maltz - Precisou disso, mesmo... É verdade.

Roquenrou - Que legal. É porque também quando a gente fica longe é que cai a ficha, não é?

Carlos Maltz - É, mas também conforme vai passando o tempo a gente vai peneirando: o que é fica, o que não é dança. Então as coisas que são verdadeiras atravessam o tempo. Então depois de todo aquele tempo, tal, a gente vir a se reencontrar, fazer música, que é uma coisa que a gente não fazia naquela época, e participar do disco também. Então tem as diferenças, cada um pensa do seu jeito, mas a sente se sente como se fosse uma pessoa da família.

Roquenrou - Você acha que ele deveria continuar com o nome dos Engenheiros?

Carlos Maltz - Ó, rapaz, aí já é um assunto que eu prefiro não meter a minha colher, porque aí já é um problema dele, né? Eu posso dizer assim: As pessoas me perguntaram essa questão do bando e da banda, que eu falei que não era mais uma banda, era um bando. "Que é isso? O que você quis dizer?" É o seguinte, eu vejo assim: Banda é como se fosse um movimento estético, então pra ter uma banda as pessoas... tipo assim, Beatles, os caras são caras de Liverpool, que têm mais ou menos a mesma idade, que viviam as mesmas coisas, estavam dentro daquele movimento da swinging london e tal; os caras do Pink Floyd eram caras lá da escola de arte, pá-pá-pá, tinham uma ligação não-sei-com-o-quê... Então é como se fosse o canto de uma tribo, cara. A banda é um canto de uma tribo. Então uma banda pra mim é isso, e isso, naquele momento do Simples de Coração, já não era mais isso. As pessoas que estavam ali não eram movidas por esse tipo de coisa, eram movidas por outro tipo de coisa, então pra mim, pra ser uma banda, é isso, são várias pessoas, não pode ser só uma pessoa, outras pessoas que estão numa outra onda que não tem nada a ver.

Roquenrou - A gente acessou um site que não sei se foi você que fez, o www.showz.com.br/carlosmaltz ...

Carlos Maltz - É, foi a gente que fez, sim.

Roquenrou - ...e ali diz que as principais influências suas são Raul Seixas, Zé Ramalho e Renato Russo...

Carlos Maltz - Não, Raul Seixas não. Zé Ramalho e Renato sim.

Roquenrou - Quem mais você poria nessa lista?

Carlos Maltz - Pink Floyd, Engenheiros do Hawaii...

Roquenrou - De Pink Floyd eu não sabia que você também gostava...

Carlos Maltz - Sim, mas isso aí era o nosso ponto de ligação...

Roquenrou - E como rolou a participação do Zé Ramalho no Farinha do Mesmo Saco?

Carlos Maltz - O Zé Ramalho é o seguinte: eu mandei uma carta pra ele...

Roquenrou - Como fã, mesmo?

Carlos Maltz - Como fã. Assim: "Ô, cara, queria dizer que..." Aí eu fiz até uns trocadilhos, peguei umas letras de música dele e fiquei falando umas paradas, assim, da música dele e tal, me apresentando, quem eu era e que... Nem sei porque mandei essa carta, acho que foi porque eu vi um negócio que eu achei assim demais e falei: "Preciso mandar uma carta pra esse cara." E falei: "Cara, pô, olha só: até eu ouvir o seu disco de 1977 eu só ouvia música em inglês!" Então, quando eu ouvi aquilo eu disse: "Caraca! Dá pra fazer em português também!". Porque a música brasileira era muito realista até então. Ou era muito realista, naquela linha Chico Buarque e tal, ou era muito frofró, tipo Djavan, aquelas coisas, sabe? Caetano, Djavan... Então, quando veio aquilo, eu digo: "Meu, isso aqui é do caralho, isso aqui é o que os caras fazem lá, em português e do caralho porque é uma parada brasileira, do nordeste, então eu era fã do cara desde o primeiro disco, desde 77. Depois teve umas fases assim dele que eu não achei legal, me afastei um pouco, mas... Aí mandei a carta pro cara, e ele me mandou um monte de livro e um troço raro pra caramba, tudo quanto é gravação dele eu tenho, mandou uns poemas de cordel que ele fez lá. Aí no fundo ficamos amigos, né? Fomos nos encontrando, eu ia em show do cara, lançamento de livro, não sei o quê... Aí quando eu fiz essa música alguém da banda mesmo, da Irmandade, eu mostrei pra eles e alguém falou assim: "Cara, essa música é demais! É muito boa! É sua mesmo? Parece música do Zé Ramalho!" E eu falei: "Muito obrigado! E eu vou chamar o cara, de repente o cara topa!" E ele topou.

Roquenrou - Ele também tem uma certa espiritualidade nas letras, não é?

Carlos Maltz - É, vamos dizer assim: eu acho que ele tangencia, né? Tangencia o mundo não-material, vamos dizer assim. E, sei lá, ele gostou da música, não sei porquê, e gravou, né?

Roquenrou - No seu disco dá pra perceber um tom predominantemente místico, o que muita gente considera ser uma posição alienada, conformista. E eu achei particularmente interessante a letra de Passos do Mundo, que fala sobre seres do espaço mas é super pé-no-chão, fala pra gente não buscar a salvação em ninguém...

Carlos Maltz - É, se você der uma olhada no fórum, no site, o assunto é esse direto. Tem um fórum ali, tem - sei lá - duzentas pessoas participando. Hoje em dia nem está mais se chamando "Fórum Carlos Maltz", tá mudando de nome, vai passar a se chamar "Comunidade Uns Manos", já criou vida própria, e o assunto é metafísico. Agora existe uma nova espiritualidade, que é a espiritualidade da nova era. Essa espiritualidade, vamos dizer assim, "fuga da realidade", com a realidade material pra um lado, realidade espiritual pro outro, isso é uma coisa já bem ultrapassada, é uma coisa mais da era de peixes, que é a que tá ficando pra trás. A espiritualidade da Nova Era é, por exemplo, Mahatma Gandhi, que é um cara que faz uma revolução espiritual. Ele derrubou a Inglaterra, que era os Estados Unidos da época sem disparar um tiro. Então isso é a espiritualidade da Nova Era. O espiritualista da Nova Era é um cara que tá no meio da rua, transformando a realidade aqui e agora. O Lula, por exemplo, o discurso do Lula tá super espiritual, cara. Eu não sei se é ele que tá tendo essas idéias eu se é alguém lá que tá orientando, ou se ele tá recebendo orientação do mundo espiritual mesmo, sabe? Mas eu sinto assim que o cara vem com uma força espiritual, falando de coisas altas. O discurso do Lula tá... não é mais aquele discurso socialista, e tal... E eu acho que isso que arrebatou as multidões. Porque o Lula tá aí há trezentos anos, né, meu? E de repente as pessoas começaram a ver uma outra coisa nele, começaram a ver um outro tipo de caráter, um outro tipo de postura diante da vida, um outro tipo de respeito pelas pessoas que estão ali, quer dizer, isso é Nova Era.

Roquenrou - E talvez tudo isso seja um reflexo disso, né?

Carlos Maltz - Exatamente. Até mesmo porque o Brasil é a grande potência da Nova Era. É aqui que estão as coisas, meu amigo, é aqui que tá o novo, é aqui que tá a união das raças verdadeira, porque eles falam que Nova Iorque é Melting Pot, né? É o caldeirão que mistura as raças, mas não mistura coisa nenhuma, porque lá é bairro que só tem preto, bairro que só tem cubano, judeu pra um lado, não sei o que pro outro... Aqui não, meu, aqui trepa todo mundo com todo mundo, não tem essa conversa aí, né? E a gente deve isso aos portugueses, meu amigo. Os portugueses são pessoas que não tinham esse problema, transavam com todo mundo. Transava com índia, transava com escrava, não tinha esses papo aí. Então gerou realmente uma raça que é mistura mesmo, cara! Alguém perguntou numa entrevista aí que achou a letra da Farinha do Mesmo Saco "muito inspirada" e não-sei-quê, que "era uma coisa espiritual", e me perguntou como é que eu tive a "inspiração divina" para receber aquela música. Eu fiquei até meio envergonhado de dizer, cara, porque o negócio foi o seguinte: eu tava lendo na revista Veja, e aí tinha uma matéria a respeito de uns cientistas que tavam usando a genética e já tinha condições de saber o quanto por cento de cada raça tinha no sangue de cada pessoa aí. Então o cara é 25% negro, não-sei-quantos por cento branco, sabe uns negócios assim?

Roquenrou - Nossa, que coisa terrível...

Carlos Maltz - Eu disse: "Mas que coisa mais filha da puta!!" Eu fiquei com tanta raiva, cara!

Roquenrou - É, isso é foda, mesmo!

Carlos Maltz - Tá entendendo? Aí eu fiz a música de uma tacada só. A primeira coisa que eu fiz foi o refrão, eu digo: "Mas que bando de filha da mãe!", aí saiu: "Há cento e cinqüenta mil anos atrás, no colo da mãe África, éramos todos negros, sem dinheiro e sem pátria. Alguns foram pro norte, outros foram pro sul, esqueceram do vovô macaco, mas somos todos Farinha do Mesmo Saco". Que conversa mole é essa?? E aí veio vindo: "Até mesmo quem você odeia...". Veio toda a letra. É uma inspiração, assim, né? Então o espiritualista da Nova Era não é um cara que fica lá, com uma bata... Esses dias uma mulher me mandou um e-mail dizendo assim: "Ah, você é um astrólogo diferente, porque você em vez de ficar com um turbante cheio de pedrinhas e falando aqueles papo cósmico, você fala nessa linguagem e ainda faz questão de falar português errado". Eu tô aprendendo a falar português errado, meu amigo. Porque é pra você falar brasileiro, sabe? Aí a minha resposta pra ela foi a seguinte: "Pra mim esse negócio de turbante com pedrinha é coisa de viado!" E é isso aí, meu amigo!

Roquenrou - É, as pedrinhas não são necessárias!

Carlos Maltz - O pessoal aqui de Brasília falam que eu sou astrólogo de Bagé, astrólogo rock and roll...

Roquenrou - Você tá com esperança no Brasil agora com a mudança de governo?

Carlos Maltz - Rapaz, a minha esperança no Brasil independe de governo. Agora eu tô assim muito feliz...

Roquenrou - ...eu não digo "deixar de ter esperanças", mas no sentido de ter a esperança renovada...

Carlos Maltz - Sem dúvida nenhuma. Eu tava até meio indiferente em relação à campanha. As coisas comigo funcionam assim... Aí um cara me mandou um e-mail que dizia assim, era a: "Carta de um pai ao filho", que era uma coisa reacionária, nojenta, o pai dizendo assim, pro filho não estudar porque um cara que não tinha estudado ia chegar a presidente do Brasil. Naquele momento eu entrei na campanha de corpo e alma, cara! Eu digo: "O quê? Mas que cambada de filha da mãe!" Aí eu digo assim: Rapaz, tem um cara ali com a maior cara de nordestinão! O cara é "Silva". O cara não fez faculdade nenhuma. O cara é um símbolo, cara! É um símbolo nessa raça brasileira aí que é a raça misturada que é a parada nova, meu! Então eu acho do cacete o que tá acontecendo aí!

Roquenrou - Voltando um pouquinho pra música, o que você tem ouvido atualmente?

Carlos Maltz - Eu escuto música no carro, que é quando eu tenho tempo. No meu carro tá tocando Bad Religion, toca Bad Religion direto lá... Eu gosto pra caramba de Bruce Springsteen, gosto muito da Legião, escuto Legião todo dia!

Roquenrou - Ah, é?

Carlos Maltz - É. Sou fã da Legião, cara! Pra mim a grande banda do rock brasileiro é a Legião.

Roquenrou - E banda nova você tem escutado alguma coisa?

Carlos Maltz - Rapaz, ó, eu tento, sabe? Mas, assim, é difícil achar uma que eu goste.

Roquenrou - Mesmo banda independente, você tem contato com alguma coisa?

Carlos Maltz - Tem muita firula, cara! Tem muito estilo. O pessoal tá muito preocupado com firulinha, com estilo, com que roupa que vai usar. Então eu não tenho muito saco pra essas coisas, não! Eu gosto mesmo é de verdade, sabe? Então pouco me interessa se o cara é independente, se é dependente da mãe, se é da gravadora, eu tô pouco me lixando, rapaz! Eu quero ver a alma, a áárrma vibrando. Então eu não vejo muita áárrma nas coisa não, sabe? Eu sinto assim muita firulinha, estilinho, a guitarrinha anos sessenta, "o cara comprou uma fender jaguar"... Muita besteira, cara! Muita viadagem! Então o troço tá muito na firula. Eu também não tô por dentro pra saber de tudo, eu posso estar falando um monte de besteira...

Roquenrou - Tem banda que manda demo pra você?

Carlos Maltz - Atualmente estão mandando menos. Teve uma época que mandavam direto.

Roquenrou - O pessoal tende a achar que quando alguém tem uma gravadora esse alguém pode ser uma porta...

Carlos Maltz - Eu nem gravadora não tenho, rapaz!

Roquenrou - Mas quando você tinha...

Carlos Maltz - ..."Porque você era famoso", tal. Eu não conheço ninguém na indústria fonográfica. Eu nunca fui amigo de ninguém, eu nunca fui cheirar cocaína com aqueles caras, eu nunca comi a mulher de ninguém. Então eu não tinha essas intimidades. Até hoje não tenho. Esses dias alguém me falou aí uma coisa a respeito do Gessinger, que o Gessinger era amigão de não-sei-quem da rádio. Olha, pode acusar o cara do que quiser. Pode falar que ele é mala, que ele é isso, que é aquilo, agora que ele é amigo de gente das gravadoras, eu digo: "Não é meesmo!" Não é mesmo, porque é uma pessoa que não tem essas intimidades. Então são umas coisas assim.

Roquenrou - A venda e a divulgação do CD tá sendo feita através da internet...

Carlos Maltz - No momento é só pela internet.

Roquenrou - Você pensa em algum outro tipo de venda, como banca de jornal...

Carlos Maltz - Eu sou um camarada que o que aparecer pra mim aí e for uma coisa que me sirva eu tô abraçando. Eu não tenho nada... tipo assim, eu nunca fui muito preocupado com essas coisas. Se aparecer uma gravadora aí eu vou. Eu só não tô em gravadora porque nenhuma me quis.

Roquenrou - Mas você também não vai correr muito atrás...

Carlos Maltz - Não, eu corri atrás, fui em todas. Peguei CD, larguei em todas as gravadoras. Mas nenhuma quis. Eu não tenho muito - na época dos Engenheiros eu já não tinha - sempre tinha esses papos, gravadora... eu digo: "Gravadora, meu, é uma fábrica, que nem a Volkswagen". Eu não fico perdendo muito tempo com essas coisas, gravadora, fazer uma guerra contra as gravadoras...

Roquenrou - Até porque você não pode fazer com que a sua produção musical dependa de estar vinculada à uma gravadora ou não, né?

Carlos Maltz - Exatamente. É isso que eu penso. Então eu vou ficar esperando sentado aqui? Eu já tô com o CD aqui, e se aparecer uma gravadora eu vou achar do caralho, cara! Agora os caras querem pegar o meu CD, botar nas lojas aí... Maravilhoso, um monte de gente vai ouvir isso. E eu acho que é bom o que eu tô falando, sabe? Então eu quero mais é que um monte de gente escute.

Roquenrou - Tem alguma rádio que tá tocando em Brasília? Ou em algum outro lugar do País?

Carlos Maltz - Tem, mas é mais umas rádios pequenas, né? Rádio comunitária... Tem um cara lá não-sei-da-onde que... mandei um CD pro cara. Aí o cara me manda um e-mail dizendo assim, que pegou o CD, levou na rádio na cidade dele e a música chegou em primeiro lugar. Então é esse tipo de coisa que acontece. Coisas assim meio esquisitas, né? Não tem uma unidade de ação, tipo de uma gravadora, né? Mas eu tô achando legal pra caramba, rapaz. É um esquema amadorzaço, assim. As pessoas fazem porque elas se entusiasmam.

Roquenrou - Legal. É gente que veste a camisa.

Carlos Maltz - Gente que veste a camisa. Todo esse trabalho foi feito assim, né? O próprio site que eu tenho na internet foi feito por um cara chamado Anderson Fonseca. É um garoto que veio na minha casa um dia, eu tava aqui morando no meio do mato, completamente fora dessas coisas, tudo, e esse cara veio aqui na minha casa, veio lá de Belo Horizonte, me achou, veio aqui. E me disse: "Cara, você não pode ficar fora, porque não-sei-quê, porque sou seu fã, não sei-o-que-lá. Eu digo: "vá se fu-dê, eu não quero nem saber dessas coisas". "Ah, mas você não pode..." Então eu falei pra ele assim: "Então é o seguinte: se você fizer um site pra mim - porque ele é fazedor de site, né? - Tu volta pra Belo Horizonte e faz um site. Tu fazendo um site eu gravo o disco. E ele foi lá e fez! Tá lá o site! Pode ir lá ver que você vai ver, o site dele! Anderson Fonseca e tal, ele é o cara que fez o site.

Roquenrou - Aliás foi ele que entrou em contato com a gente...

Carlos Maltz - É, ele mesmo, é o Anderson. Ele é um cara que me tapeia, sabe? Ele vai ler essa entrevista, vai dizer: "Porra, aqui você falou assim, assim do Humberto, não tem nada a ver o que você falou", isso isso e isso. Não é mole não, cara!

Roquenrou - Você ganhou um assessor...

Carlos Maltz - Ah, rapaz! O cara é o patrão! E nasceu no mesmo dia que eu.

Roquenrou - Olha, que interessante!

Carlos Maltz - Ele nasceu no dia 24 de outubro de 1982, às 18 horas, eu nasci no dia 24 de outubro de 1972 às 18 horas.

Roquenrou - Eu não entendo nada de astrologia...

Carlos Maltz - Eu sei, mas sabe que é uma coincidência forte...

Roquenrou - ...claro, eu sei, mas além dessa coincidência inicial gritante, quando você vê na astrologia isso influi mesmo?

Carlos Maltz - Claro, claro. O cara tem o sol no mesmo grau. Então tem uma série de coisas. Não é à toa que essa pessoa tem essa identificação e tal, existe toda uma afinidade aí. Mas mesmo pra uma pessoa que é leiga, a chance matemática disso acontecer... Não é? Calcula aí! Desses dois caras terem se encontrado, né? O que me abriu a porta pra começar a estudar esse tipo de coisa foram as sincronicidades, esses acidentes cósmicos que a gente percebe que tem alguma coisa mas não sabe o que é. Isso me abriu a porta. Então eu falo isso também pras pessoas no sentido das pessoas que se interessarem virem por aí também.

Roquenrou - Você era completamente cético antes, né?

Carlos Maltz - Rapaz, eu era cruzado da razão, muito mais do que cético. Era cruzado da razão. Cruzado da razão quer dizer o seguinte: cada vez que eu ouvia alguém falar de qualquer assunto místico perto de mim eu saía mordendo os calcanhares.

Roquenrou - Você acredita em Deus?

Carlos Maltz - Nossa! Eu não acredito. Eu falo pras pessoas que perguntam "Cê acredita em Deus?", eu falo: "Não". Acreditar é tipo assim: você pode acreditar que a inflação vai cair, que o pessoal lá do Antônio Carlos Magalhães não vai conspirar contra o governo Lula, pode acreditar nisso, se você quiser. Que o Brasil ia ganhar o Pentacampeonato com aquele time - e ganhou o pentacampeonato. Isso são coisas que você pode acreditar ou não. Em Deus não tem necessidade de acreditar, pra mim, porque é uma realidade. Deus é tudo quanto há. O meu conceito de Deus é o que tá na música Quase uma Oração. Deus pra mim é aquilo ali. Então não é um cara que tá lá no céu. Se você quer entender o que eu acho de Deus é o que tá lá naquela música. Então aquilo ali não precisa acreditar naquilo. Aquilo ali é. Deus é.

Roquenrou - Aquela imagem de que Deus é uma pessoa controlando a vida de outras pessoas...

Carlos Maltz - E esse é o conceito de Deus, né? É a noção de Deus. Eu respeito todas as religiões, todos os conceitos, todas as maneiras de compreender isso, porque é uma coisa que realmente não é compreensível pra nós em termos claros. Então pra mim, sei lá, tanto faz. O cara lá na Índia acredita que a força não sei-o-quê... Pra mim tá tudo bem. A minha noção do que Deus seja tá lá naquela música, então pode ser tudo aquilo que tá falando ali. E uma pessoa me perguntou, também, numa entrevista: "De onde é que eu tirei aquela música ali, né? Como é que aquelas imagens foram aparecendo? E aquilo ali eu tava sentado numa praça, cuidando de uma criança que tava brincando de esconder. O menininho tava brincando e eu tava imbuído pela mãe dele de cuidar daquela criança. Então eu tava vendo um monte de coisa que tava acontecendo ao meu redor. Sentou um cara do meu lado e começou a falar uma história, que tinha saído com uma garota de programa e a menina queria beijar ele, então ele não beijou ela. "Imagina que eu ia beijar aquela vagabunda!" Nisso, eu vendo as crianças brincarem, e pensei assim: "Caraca! E se ela fosse Jesus disfaçado?" E nisso tinha um cara, um mendigo que tava do outro lado da rua e eu olhei e pensei: "Caraca, aquele cara ali ele não acredita em Deus, ele está em Deus, ele é, porque ele tá dormindo embaixo do céu, cara! O cara tá na confiança total. E aí foram aparecendo todas as coisas, e depois veio aquela imagem: "Deus pode ser alguém que nunca pôde ser criança e brinca agora de esconder". Essa coisa da gente achar que Deus não existe, né? Mas quem acha isso aí é nóis, porque ele tá aí o tempo inteiro.

Roquenrou - Você acha que no ano 2000 ia acontecer ou aconteceu alguma coisa especial, mesmo?

Carlos Maltz - Sim, veja bem: na verdade essas coisas da astrologia, as pessoas esperam acontecimentos catastróficos e hollywoodianos, então "o fim do mundo é na virada no milênio". Bom, aí chega lá na data e não acontece nada. Então eu conto a história, por exemplo, do que aconteceu por volta de mil quatrocentos e cinqüenta e pouco, e foi também numa data dessa que falaram que ia ser o fim do mundo. Então chegou na data lá e não aconteceu nada. E aí naquela época a situação era pior, porque os astrólogos iam pra fogueira mesmo. Nego errava previsão, cortavam a cabeça fora...

Roquenrou - Mas se ele acertasse a previsão era capaz de acontecer a mesma coisa...

Carlos Maltz - É, exatamente, [risos] a situação era um pouco apertada. Então o que acontece, foi o ano, a data de nascimento de Martinho Lutero [1483-1546, fundador da igreja protestante], então através de Martinho Lutero teve um mundo que acabou, que foi o mundo no qual a Igreja era inquestionável. Isso aí é compreensível pra quem tiver condições de observar a história, do que aquilo significa e tal. Então realmente teve um mundo que acabou. Pode ver, até aqui, com a eleição do Lula, tá todo mundo alegrinho, e tal, mas tem um mundo que acabou. Nós estamos entrando numa outra fase. O dia 11 de setembro de 2001 é um marco disso, teve um mundo que acabou ali, cara, o mundo da inviolabilidade, quer dizer, os caras era intocáveis. Inclusive tá representando o que pode vir a acontecer na frente. Então teve um mundo que acabou, mas não é que o mundo vai acabar. Porque o mundo, meu amigo, se acabar o mundo vão fazer o quê com a sucata? Então a loucura é mais embaixo, mas as pessoas querem acontecimentos, coisas e tal, "morreu um monte de gente!", aquelas coisas assim. Então: "Ah, tá vendo? É tudo mentira desses caras!". A astrologia é uma ciência muito profunda, mas é uma ciência que não tá em sintonia com a velocidade da mídia hoje em dia. A mídia hoje em dia quer assunto rápido, imediato, instantâneo. Uma vez eu vi uma entrevista do... acho que do Malcolm Young, guitarrista do AC-DC, aí o cara perguntava assim: "É verdade que a banda vai acabar esse ano?". O cara falou assim: "Que eu saiba não". Aí o rapaz falou: "Não, mas e os boatos, e tal, que tão saindo na imprensa?". O cara falou assim: "Mas você quer que os caras publiquem o quê? Que estamos bem entre nós, com as nossas famílias, todo mundo se dando bem?". Então tem essas coisas. É a velocidade da mídia, que quer fatos e coisas bombásticas, hollywoodianas.

Roquenrou - É, a mídia tem mesmo essa necessidade, de procurar notícia muitas vezes onde não tem...

Carlos Maltz - Exatamente. As coisas da astrologia, elas têm outro tempo: quinhentos aaaanos. Os caras me ligam aqui:
- Quando é que começa a era de aquário?
- Daqui a 500 anos
- Ooooohh
Né? Uma decepção. "Porra, daqui a 500 anos?? Eu vou ter que publicar o jornal amanhã!! Não tem nada acontecendo aí que eu possa dizer?"

engenheiros
"Comecei a achar que o papo dos Engenheiros não tinha mais nada a ver, mas não tinha mais nada a ver comigo. "

vocais
"O principal que eu faço é escrever, então pra cantar as coisas que eu tô falando tem que ser eu mesmo."

crítica
"Eu tô surpreso com a resposta da crítica, porque os Engenheiros sempre foram massacrados pela crítica, e eu agora venho com esse papo espiritualista..."

zé ramalho
"Cara, até eu ouvir o seu disco de 1977 eu só ouvia música em inglês!”

nova era
“OBrasil é a grande potência da Nova Era. É aqui que estão as coisas, meu amigo, é aqui que tá o novo, é aqui que tá a união das raças verdadeira.”

renato russo
“O cara foi genial quando fez aquela letra, porque pegou a condição existencial dele e transformou em arte!”

 

Maltz e Gessinger

Roquenrou - Horóscopo em jornal é picaretagem, é confiável, o que você acha?

Carlos Maltz - Bom, depende de quem tá assinando. Uma coisa é o horóscopo de jornal assinado pelo Quiroga, outra coisa é o assinado pelo Zé das Couves lá que ninguém sabe quem ele é. Tem, o Bola, por exemplo, que faz um horóscopo de jornal lá no Rio, que é sério. Agora aquilo ali é relativo. É um negócio mais ou menos, não tem como ser uma coisa precisa...

Roquenrou - É complicado, porque pode parecer que o ser humano foi fabricado em série: "Todas as pessoas de Capricórnio vão encontrar alguém hoje"...

Carlos Maltz - Exatamente. Mas você pode ver que as pessoas sérias em horóscopo de jornal elas fazem uma coisa muito vaga. O horóscopo do Quiroga, por exemplo, é bem vago. Não diz assim: "Você vai encontrar alguém hoje", ele fala assim: "Olha, o momento assim, e tal"... É uma coisa mais - vamos dizer assim - vaga, nebulosa, mesmo. Porque não tem como fazer uma previsão pra todas as pessoas do mesmo signo. É uma coisa aproximada mesmo.

Roquenrou - Mas mesmo essa coisa vaga tem uma certa lógica, né?

Carlos Maltz - Tem uma lógica. Mas eu tô falando assim: quando o cara é sério, em horóscopo de jornal, ele não vai fazer um negócio assim... roupa muito justa. Ele vai dar uma orientação mais espiritual, mais ampla, um negócio que deixa mais espaço. Mas existe um fundamento naquilo ali. Não é completamente aleatório, não. São pessoas que conhecem e podem fazer aquilo com uma certa competência.

Roquenrou - Aí, quando se fala em mapa astral, já é mais preciso, né?

Carlos Maltz - O mapa astral é uma coisa completamente diferente. O mapa astral é a placa do veículo. Só tem um, não tem dois iguais no mundo. E a finalidade do mapa astral não é muito - pelo menos do que eu faço - não é muito adivinhar o que vai acontecer com a pessoa. "Ah, eu vou ficar com a minha namorada ou não?", não é bem isso. É a pessoa se conhecer melhor. É a pessoa conhecer a planta baixa do prédio. É a pessoa conhecer o manual de instruções do carro. Conhecer um pouco da própria natureza. Pra quê? Pra poder entrar mais em sintonia consigo, porque as vezes a pessoa tá vivendo uma vida que não tem nada a ver com ela. Então engoliu um modelo qualquer - hoje em dia tá cheio - e aquilo ali não satisfaz ela, é uma coisa completamente vazia. Aí o cara taca anti-depressivo, é uma sociedade movida a anti-depressivo: maconha, álcool, etc. Por quê? Porque é difícil você ver aí uma pessoa que está satisfeita com a vida que leva. E muito não é, as pessoas pensam que é por causa do governo, tá faltando dinheiro, isso e aquilo, muitas vezes não é por isso, não. Muitas vezes é porque a vida que ela leva não tem absolutamente nada que ver com a verdadeira natureza dela, que tá coberta lá com camadas e camadas de ilusão que ela tá vivendo. Então eu falo que o meu trabalho é como se fosse um restaurador de quadros. Então o cara pega o quadro, aí tem aquele monte de camadas de coisas que foram pintadas em cima da pintura original. Quem pintou a pintura original? Deus, ou o Grande Espírito, ou o acaso, o que a pessoa quiser chamar isso, né? Então em cima disso tem um monte de coisa que não é original. Então a gente vai tirando tudo que não é original pra pessoa ver lá a pintura original. É uma coisa muito séria e pode trazer muito benefício pra pessoa. Tem uma amiga minha aqui em Brasília que é psicóloga - ela é psicologa mas é minha cliente - então ela fala assim: "A sua astrologia é terapia de pobre", porque o cara vai uma vez só e já dá um adianto bom, porque terapia o cara tem que ficar indo aaanos... Então lá, na astrologia o cara vai uma vez só...

Roquenrou - Até porque essa reflexão é muito necessária, né? A gente poucas vezes pára pra pensar sobre nós mesmos...

Carlos Maltz - Exatamente, cara. Eu penso que é uma coisa que... por exemplo, marido e mulher, namorado, tal: aquilo ali adianta um bocado de coisa, pra entender como é que o outro funciona, como é que a cabeça do outro funciona, o que ele espera da vida, o que ele espera de um relacionamento. Pai e filho, né? É uma coisa fantástica, é um trabalho muito bonito.

Roquenrou - Então quando você faz o mapa astral de alguém realmente é um trabalho mais específico...

Carlos Maltz - É bem específico. Agora, é uma consulta de duas horas, né?

Roquenrou - Eu vi no site que você faz o mapa astral por lá também...

Carlos Maltz - Mando também por correspondência. Mas é um outro nível de profundidade, né? É uma coisa a pessoa sentar na minha frente e ficar duas horas conversando comigo, outra coisa é a pessoa receber uma fita de 60 minutos. Mas mesmo quando eu faço com a fita a gente fica trocando e-mail às vezes meses. A minha formação, no começo, as pessoas perguntam: "Qual é a faculdade que você fez?". "Não fiz faculdade, mas eu fiz, sei lá, tô há dez anos fazendo análise Junguiana, bebendo aiauasca", o que aparece por aí de auto-conhecimento eu tô dentro. Então a minha faculdade sou eu. Então a gente conhecendo a gente mesmo a gente conhece um pouco dos outros também, por tabela, né? Porque é tudo Farinha do Mesmo Saco, mesmo, né? A matéria-prima é a mesma. O nosso trabalho também visa a gente tirar um pouco do pó que existe em cima da astrologia e dessas ciências antigas. As pessoas têm uma noção muito ultrapassada do que seja a astrologia. A astrologia é uma coisa muito de vanguarda, é física quântica. Tá lá no top de linha do que se faz de mais avançado na física hoje. Os caras mais avançados da física, que são os discípulos de David Bohm [1917-1992, físico norte-americano], esses caras estudam astrologia hoje. Interação do mundo visível com o mundo invisível, pra onde a religião e a ciência estão caminhando juntas.

Roquenrou - Agora que você passa suas mensagens em letra de música a sua visão sobre a música mudou?

Carlos Maltz - Sem dúvida, Nossa Senhora! Nossa, eu digo assim, que pra mim a música agora ela passou a ter um sentido muito grande, porque na época que eu era dos Engenheiros, e tal, eu não tinha muita consciência do que eu tava fazendo, não. Era um negócio meio na festa, no oba-oba, e quando a gente foi ver, já tava. Foi muito rápido quando aconteceu. Eu nunca tinha pensado em ser músico. Eu tava lá, fizemos uma banda na faculdade, aí quando foi ver já éramos profissionais, vendendo disco, aquela coisa toda. Então eu não tinha muita consciência do que eu tava fazendo, não, rapaz, sabe? Então hoje pra mim é uma coisa muito clara o que eu tô fazendo. É uma música muito simples, é um veículo de transmissão de mensagem. Mas a mensagem que a gente transmite na música não vai, não é do mesmo jeito que ela vai num texto, por exemplo. É uma coisa muito específica, a letra de música. Como é que uma letra de música vai acontecendo? Eu fico vendo as pessoas discutirem no fórum, pegam uma letra minha qualquer lá e ficam discutindo. Eu fico vendo aqui e digo: "Rapaz - eu até brinquei com eles esses dias - Ó, eu tô aprendendo um bocado de coisa com vocês, porque eu nem sabia disso!". Os caras ficam viajando lá e tal. A letra de música é um negócio que vai se escrevendo. A gente meio que vai ouvindo aquilo, aquilo vai se fazendo através da gente, então é um negócio assim bem... uma pescaria, sabe? Ficar pescando ali e as coisas vão chegando. Eu acho que o cara que escreve letra de música é uma antena, sabe? Não vejo muito assim como "O cara é 'o autor'" e tal, o ego daquele tamanho, não vejo necessidade dessas coisas, não. Não tem porque ficar endeusando artista. Eu vejo que endeusamento de artista é uma coisa que aconteceu porque tiraram Deus do lugar. Então ficou sem Deus, tinha que botar... Qual era a coisa mais perto de Deus que tinha a nosso alcance? "Ah, é Artista". Porque você pega, por exemplo, músico, músico realmente é quem vai mais alto. Você pega, por exemplo, um cara como o Johann Sebastian Bach, porra, cara, se você pega qualquer introdução de qualquer música dele lá tem mais música do que tudo que é feito hoje em dia no mundo. Aquele cara ali não achava que era grande coisa, não. Ele era um funcionário do rei, lá, tinha a família dele, era um cara casado e tinha um monte de filho, não tinha essas coisas de muito glamour e ficar fazendo - sabe? - malhar pra ficar com barriguinha, todo gostosinho, comendo todo mundo, não tinha essas histórias.

Roquenrou - Antes da época dele os músicos nem assinavam as obras...

Carlos Maltz - Nem assinavam. Os caras não achavam que tinha necessidade de botar o nome dele na parada. Eles se viam realmente como um instrumento da força criadora. E essas coisas estão sendo retomadas, porque o período de materialismo dentro da história é um período bem pequeno. Esse pensamento materialista científico, que a gente tá saindo dele agora, se nós conseguirmos sair vivo, ele é um hiato, cara. O tempo que a gente ficou sem Deus aí na história da humanidade é muito pequeno.

Roquenrou - Mas é pequeno quanto? Coisa de 1 século?...

Carlos Maltz - É coisa de mil setecentos e pouco pra cá. Coisa de René Descartes [1596-1650, filósofo e matemático francês] pra cá. Cartesianismo, né? Então, vamos dizer assim, nós estamos recuperando toda aquela linha humanista. Os caras lá na Idade Média, o cara que era músico não era só músico, era músico, médico, ele conhecia botânica, ele conhecia - sei lá - astronomia, alquimia... então era uma coisa rica, e eu sinto falta disso. O negócio tá muito pobre, cara. Fica uma coisa muito autofágica, uma coisa incestuosa. É todo mundo relembrando. Então é revival dos anos 60, revival do revival. O cara faz o revival duma banda que fazia revival do revival de 1967, é muuita bobajada. E não tem alma nenhuma no negócio, o que interessa mesmo não tem. Então eu sinto essa necessidade da gente voltar pra essência. A música tem que voltar a ser música, a gente ouvir uma música no rádio e "caraaaca!", né? Porra, eu vi uma vez o Eric Clapton numa entrevista dizendo que a primeira vez que ele ouviu Steve Ray Vaughan no rádio ele parou o carro, meu! O cara vinha andando pela highway, ele parou o carro, bicho! Ele parou o carro e ficou lá... O Eric Clapton! Ficou lá ouvindo aquilo, dizendo "caralho!", sabe? Onde é que estão essas coisas, agora? Cadê? Cadê esse cara capaz de fazer isso com você agora? Onde é que tá o cara que pega uma guitarra e faz a sua alma chorar, cara? Uma letra, meu amigo... uma letra que diz, não é um negócio assim, aquela gomazinha pra vender disco, aquela bobajada. Então o artista é pra ser artista mesmo, cara! O cara ouvir aí "fulano de tal, artista"... Casa dos Artistas, que artista? Vamos ver: o cara é artista por quê? Qual é a arte que ele faz? "Ah, eu vou bater uma foto da bunda dele na revista Caras". Não é artista. Não é por aí?

Roquenrou - A grande maioria que saiu de lá não fez mesmo mais nada além de posar pra revista...

Carlos Maltz - Pois é, posa pra cá, posa pra lá, o cara é cínico pra caramba, todo mundo é cínico. Mas isso aí é um troço que não tem saída. É uma perspectiva fechada. Tem um pintor espanhol, que eu não me recordo o nome, o cara pinta uns quadros com uma perspectiva fechada. É isso aí, é um troço que não tem saída. Então fica o rock se auto-digerindo. Não tem alma, né, meu? E sem alma não dá, a gente não vive sem alma.

Roquenrou - A saída pra isso seria a miscigenação do povo brasileiro? Em relação à tudo, no caso à música...

Carlos Maltz - Olha, eu acho assim, que a saída pra isso vai acontecer. Ela já tá chegando aí. Ela já tá chegando aí. Ele não tá vendo o que tá vindo pela frente aí. Mas tem uma onda de 40 metros chegando na proa do navio. Quando a onda bater no casco, meu amigo, é o seguinte: todas as frescura, todas as besteirada, todas as bobajada, todas as inutilidades vão dançar. Sei lá que tipo de situação. "Que tipo de situação vem por aí?". Eu não sei, pode ser uma carestia, uma falta de coisas incrível... Imagina só, por exemplo, em Cuba. Ali o cara vai ser artista por quê? Por vaidade, porque ele quer pôr a bunda na Caras... não! Porque ele tem aquilo dentro da alma dele, precisa, se ele não for artista ele morre, cara, porque ele fica doido, se joga do sétimo andar! Então é uma necessidade, é uma verdade, cara! Pô, a primeira vez que eu vi o Renato Russo, cara, era um dia de - sei lá - 40 graus no Rio de Janeiro, abriu o elevador da EMI Odeon, saiu aquela figura nanica, com um casaco preto, cara, uns coturno até o joelho. Meu amigo, eu digo "Caraca, o cara deve estar num futum aí dentro!". Mas o cara tava ali, porra, compenetrado e sério pra caramba. O cara tava vivendo aquilo o tempo inteiro, meu! Não é uma bobajada, uma besteirinha. O cara morreu de Aids, cara! Falou lá, fez uma música maravilhosa, que chama... é... aquela que fala "Gosto de São Paulo, gosto de São João"...

Roquenrou - ...Meninos e Meninas...

Carlos Maltz - ...aquilo ali é uma coisa genial. Eu sou contra viadagem, tá entendendo? Sou contra, acho que homossexualismo é coisa do satanás, acho um absurdo, mas acho que o cara foi genial quando fez aquela letra, porque o cara pegou a condição existencial dele e transformou em arte! Então isso é o que tá faltando. Cara, aquilo ali é arte! Então pra quê que nós estamos fazendo isso? O cara vai ser músico pra ser picareta? É o que eu digo pras pessoas: "Quer ser músico?"... O cara me manda um e-mail perguntando assim: "Eu quero ser músico e tal. O que que eu faço?", a primeira coisa que eu digo: "A primeira coisa que você tem que fazer é ver bem o que você quer da vida. Se você quer ser rico, vai ser advogado, cara!". O cara entra pra música com mentalidade de publicitário, cara!

Roquenrou - É, se o cara quer conselho pra começar o básico, é porque já não é artista, né?

Carlos Maltz - É, mas o resultado qual que é? Um monte de coisa descartável, cara! Você ouve uma vez e tem vontade de vomitar! Aí, eu me lembro do tempo que eu ainda tava preocupado com essas coisas, ainda era dos Engenheiros, aí vinha lá: lista dos melhores do ano da revista Bizz. Cara, era só coisa horrorosa, porra, uns troço muito ruim de ouvir, cara. Então eu digo: Qual é a desses caras? Esses caras devem ter raiva de música, porque pô, cê é obrigado a ouvir disco, ficar lá ouvindo, "o que que você vai achar bom?", é o pior, é o que foi mais irritante, o que foi mais chato pra caralho...

Roquenrou - A crítica faz questão disso, parece que o o cara só é legal se gostar disso...

Carlos Maltz - É, exatamente, é um negócio intelectual, é um negócio mental, é um negócio da cabeça, não é do coração.

Roquenrou - E aí a gente entra naquela coisa de que alguma coisa muito popular e brega, talvez seja feita com muito coração.

Carlos Maltz - Depende. Tem uns caras que tão aí há vinte anos...

Roquenrou - ...mas até esses pagodinhos que têm aí. De repente tem gente que tá fazendo de coração.

Carlos Maltz - Tem. Lógico que tem, é o que eu tô falando. Os caras mais legais que eu conheci em toda a minha carreira musical foram o Chitãozinho & Xororó. Gente fina mesmo, gente assim que eu respeito, tá entendendo? Mas tem os outros caras lá que são os picaretas, que tão imitando o estilo. Os caras não são nada daquilo, os caras estão falando de amor mas você vai ver, o cara sai do show e vai comer menininha de doze anos de idade. O Chitãozinho & Xororó não fazem isso, não, meu amigo, aqueles caras eles são retos. É amor mesmo. Cê vê a família deles é gente reta. Gente séria, gente reta, gente com respeito, tem amor pelos filhos, os filhos são bonitos, aquilo ali mesmo é verdade. As pessoas metem muito o pau naquilo ali porque dói de ver gente vivendo assim. Gente que não tá precisando de tomar anti-depressivo, mas tem. Tem.

O site do Carlos Maltz é www.carlosmaltz.com.br