Carlos Maltz - Exatamente. Na verdade
tem uma colagem de três momentos diferentes, mas existe
isso aí mesmo que você falou, tem uma unidade
no trabalho, porque desde que eu comecei com este trabalho
em 1995, até agora, este é um trabalho que tem
um norte ideológico conceitual. Isso é uma coisa
que, sei lá, pra gente lá nos Engenheiros era
uma coisa comum. A gente cresceu ouvindo Pink Floyd, Zeppelin,
tinha isso, era comum naquela época...
Roquenrou - De ter um conceito, de
ter continuidade...
Carlos Maltz - É, hoje em dias
as pessoas acham isso: "Oh, que coisa, um conceito",
e tal... mas isso era uma coisa muito comum nos anos 70, né?
Roquenrou - Tem coisa da Irmandade,
também, nesse CD? [A Irmandade foi a banda que o Maltz
formou após a sua saída dos Engenheiros do Hawaii]
Carlos Maltz - Tem, tem coisa da Irmandade,
por exemplo, gravação... gravação
da Irmandade é Anjos de Metal. Essa aí é
a gravação do disco da Irmandade, mesmo, é
a gravação original. É com a banda, e
tal, tem os backings, toda aquela parada da Irmandade. Essa
música eu acho que o som dela é bem diferente,
inclusive, do resto do disco, até mesmo porque nem
sou eu que tô tocando bateria nessa faixa.
Roquenrou - Mas você não
toca bateria em todas as outras faixas...
Carlos Maltz - Eu toco bateria em
todas, a não ser Passos do Mundo, que é
um sample de batera, e Outra Vez Nós Dois também.
Roquenrou - No CD tem uma versão
diferente da gravada pelos Engenheiros de Castelo dos Destinos
Cruzados, e eu achei mais legal...
Carlos Maltz - Essa versão
é a versão original.
Roquenrou - Ah, é!? É
a versão original?
Carlos Maltz - É. Ela era assim.
Mas aí foi o seguinte: Ela não ia entrar no
disco [Simples de Coração, dos Engenheiros]
porque já tinha muita balada. Aí eu mudei ela
pra ela entrar.
Roquenrou - Quando
foi que você se deu conta de que queria passar suas
próprias mensagens nas letras de música?
Carlos Maltz - Isso foi em 94, 95,
e foi o que deu origem à toda a nossa briga, porque
eu já tava seguindo o meu caminho, estudando astrologia,
Jung [1875-1961, psiquiatra e psicanalista suíço],
enfim, seguindo por esse caminho mais espiritualista, então
chegou uma hora em que eu falei assim: "Meu, esse papo
aqui não tem nada a ver". Comecei a achar que
o papo dos Engenheiros não tinha mais nada a ver, mas
não tinha mais nada a ver comigo.
Roquenrou - Mas você diz em termos
de letras, mesmo?
Carlos Maltz - Em termos de letras,
mensagens, mesmo. Então eu achei que já tava
repetitivo e era um papo muito existencialista, tá
entendendo? "Coitadinho de mim..." Então
eu comecei a entrar em choque com esse tipo de coisa. Então
eu falei: "Ó, não adianta eu ficar só
criticando. Eu vou começar a fazer letra". Então
eu fiz O Castelo dos Destinos Cruzados.
Roquenrou - Ah, isso foi então
nesse período intermediário, entre o Filmes
de Guerra, Canções de Amor e o Simples de Coração...
Carlos Maltz - Foi, foi. Isso, 94,
95, foi aí que eu comecei com essas histórias.
E aí deu o maior rolo, porque não tinha nada
a ver com a linha do grupo, e não-sei-quê, tal...
Foi a primeira vez que tinha uma letra num disco dos Engenheiros
do Hawaii que não era do Humberto. A não ser
Era um Garoto, que era um cover, né?
Roquenrou - Mas o Humberto teve alguma
restrição clara com isso?
Carlos Maltz - Teve, bah, nossa senhora!
Foi quebra pau, mesmo, cara! Ele fazia protesto, não
tocava a música, tocava olhando pro chão, era
uma coisa, assim... dramática! Era uma briga de ego,
mesmo.
Roquenrou - E é interessante
que hoje a gente vê que vocês estão na
boa...
Carlos Maltz - Graças a Deus,
rapaz! É...todo esse Farinha do Mesmo Saco existe
porque ele tava lá junto. O cara tocou, ajudou a produzir
e ainda patrocinou o CD!
Roquenrou - Ah, é?
Carlos Maltz - É, deu uma força
até aí, também!
Roquenrou - Mas ele produziu mais as
faixas gravadas em 2001, ou não?
Carlos Maltz - É, na verdade
foi uma co-produção. Ele trabalhou... foi em
2001, é - nas faixas anteriores ele não chegou
a tocar -, então quando a gente fez as faixas de 2001,
a gente fez uma co-produção... no caso foi eu
e ele - pessoas que tocaram -, mais o Fábio Tabach
e o Rodrigo Kuster, que são os caras da Rock House,
lá do Rio de Janeiro, que estão comigo desde
95, também... o Guto Dufrayer, são caras que
estão comigo desde aquela época, estão
apostando no meu trabalho sem terem ganhado um puto ainda,
desde 95.
Roquenrou - Teve algum acontecimento
específico que fez você e o Humberto voltarem
a se falar?
Carlos Maltz - Tem, tem. Isso aí
tá tudo contado timtim por timtim lá no fórum
do meu site, num tópico que se chama "Se a coisa
ficar preta o negócio é aquele chá".
Tá toda a história contada lá.
Roquenrou - Isso a gente não
chegou a ver no seu site...
Carlos Maltz - Vai lá no fórum.
Tem a ver com religião e tal, com umas paradas minhas.
Então lá tá contando tudo direitinho
como é que aconteceu.
Roquenrou - O Farinha é um disco
independente. Como vai ser a divulgação do CD?
Carlos Maltz - Bom, tá sendo
da seguinte maneira: tem um monte de gente... É que
esse trabalho é um trabalho que rola pra frente porque
tem muito amigo, muita gente que é simpatizante, é
um negócio meio PT, no começo, assim, sabe?
Então o cara mora lá em Fortaleza e fala assim:
"Pô, me manda um CD aí pra eu levar na rádio
não-sei-qual... Aí eu mando o CD lá pro
cara. Tá funcionando dessa maneira.
Roquenrou - E você acha que é
possível viver de música sem uma gravadora por
trás?
Carlos Maltz - Bom, eu não
vivo de música, só, né?
Roquenrou - Você continua exercendo
astrologia?
Carlos Maltz - É, o meu principal
hoje em dia é a astrologia. Eu vivo disso, tenho consultório
aqui em Brasília. Modéstia à parte sou
bom nesse negócio aí, sabe? Então eu
vivo disso, e fazendo a música aí também,
né?
Roquenrou - Como
é que é assumir os vocais?
Carlos Maltz - Ó, cara, agora
até que já tá mais tranqüilo. No
começo foi foda, porque a minha voz é de baixo
profundo, então no primeiro disco da Irmandade tivemos
que afinar tudo um tom abaixo. Eu vinha aprendendo a cantar,
fazendo aula e tal pra conseguir dar o recado. Eu nunca tive
muitas pretensões de cantar, mas com as coisas que
eu escrevo... eu penso que o principal que eu faço
é escrever, então pra cantar as coisas que eu
tô falando tem que ser eu mesmo, porque é
uma coisa muito pessoal. Então tem que ser eu, então
eu fui cantar por causa disso, como uma coisa funcional.
Roquenrou - Você ainda tá
tocando bateria nos shows?
Carlos Maltz - No momento não
porque eu canto, né?
Roquenrou - Você está
exclusivamente lá na frente, não tem nenhuma
música em que você vai pra bateria?
Carlos Maltz - Não, se a gente
for fazer uma turnê aí vamos botar, sim. Porque
eu gosto de tocar bateria. Eu fico mais à vontade tocando
bateria do que cantando.
Roquenrou - Você tá fazendo
shows? Como é que tá sendo?
Carlos Maltz - A gente faz show, mas
não é tipo turnê, assim. Eu faço
show aqui, faço outro ali... se convida eu vou lá,
faço só violão, faço com banda...
Agora tá rolando uma oportunidade de fazer uma mini-turnê
no Japão. Porque tem um CD que foi pra lá, não
sei quem que levou, tem uma rádio lá que é
da comunidade brasileira, então parece que tá
tocando duas, três músicas lá.
Roquenrou - E aí você
dizer que era dos Engenheiros também ajuda, né?
Carlos Maltz - Sem dúvida nenhuma,
claro!
Roquenrou - Aliás, em todos
os casos isso ajuda, não é?
Carlos Maltz - Mais ou menos, quer
dizer, na minha profissão de astrólogo atrapalha.
Porque o povo não me leva muito à sério
em princípio. Quando falam assim: "Ah, é
uma palestra aqui com o astrólogo Carlos Maltz, aqui
de Brasília, que era integrante dos Engenheiros do
Hawaii", a comunidade astrológica já acha
que eu sou picareta, né, pô! "O cara é
roqueiro"... Mas aí a gente começa a falar,
já vê que a gente não tá de brincadeira
nesse negócio aí não.
Roquenrou - E como é que tá
a receptividade do público?
Carlos Maltz - Rapaz, ó, tá
me surpreendendo muito, porque o público que tá
comprando no momento é de fãs dos Engenheiros,
então ali tá sendo muito boa e tal. Ali a gente
já imaginava que podia ter uma receptividade boa, tem
a participação do Humberto, essas coisas...
É um disco que soa super Engenheiros, então
os fãs estão delirando, porque estão
com saudades, tal...
Roquenrou - Até porque é
uma sonoridade dos Engenheiros que até os Engenheiros
não fazem mais, né?
Carlos Maltz - Não fazem mais.
É mais Engenheiros que os Engenheiros! Até porque
tem o Humberto tocando baixo e guitarra no mesmo disco, né?
O que nos discos dos Engenheiros nunca teve! Mas eu tô
surpreso com a resposta da crítica, porque os Engenheiros
sempre foram massacrados pela crítica, e eu agora venho
com esse papo espiritualista, eu digo "meu, os caras
vão cair matando"! E só veio crítica
boa, falando bem... Eu tô muito surpreso com isso.
Roquenrou - O Humberto participa de
alguns shows?
Carlos Maltz - É, bom, a gente
já fez abertura de vários shows dos Engenheiros.
Aí vai lá, ele toca uma música com a
gente. Até a gente tá fazendo algumas músicas
aí por e-mail também, né?...
Roquenrou - É, é o caso
da E-stória, né? [E-stória
é uma parceria Gessinger/Maltz gravada no "Surfando
Karmas & DNA", dos Engenheiros]
Carlos Maltz - É, a gente fez
a E-stória, tem um outra que se chama <I>Segunda-feira
Blues</i>"...
Roquenrou - Ah, essa daí a gente
pegou vocês fazendo no show, cara...
Carlos Maltz - Você tava lá?
Roquenrou - Eu, tava, foi aqui em São
Paulo... Foi durante a Copa do Mundo...
Carlos Maltz - É, esse daí
mesmo... E a gente tá fazendo uns negócios aí...
Roquenrou - A E-stória
foi o que te incentivou a voltar à música ou
foi uma fotografia do que já tava rolando?
Carlos Maltz - Já tava rolando,
porque a E-stória foi depois do Farinha.
Roquenrou - Você já tava
com ele pronto?
Carlos Maltz - O Farinha
tá pronto desde julho de 2001, foi um disco feito em
horários que estavam sobrando dentro do estúdio...
Roquenrou - E como foi participar de
um disco dos Engenheiros agora não mais como baterista,
mas como compositor e dividindo os vocais?
Carlos Maltz - Foi uma continuação
do Farinha...
Roquenrou - Você encara mais
como uma continuação do Farinha, mesmo?
Carlos Maltz - Eu encaro assim. Porque
na verdade Engenheiros é o quê? É o Humberto,
né? Então não tinha aquela coisa de banda.
Cheguei lá encontrei o Humberto e o Alexandre Alves,
que é técnico de som, que são pessoas
que eu já conheço desde a idade da pedra, então
foi uma coisa que foi assim, como se tivéssemos dando
uma continuação do que a gente tava fazendo
no Farinha, porque o clima, a energia, na gravação
do Farinha foi muito legal, foi muito descontraída,
e é uma coisa que passa no disco. Nos discos dos Engenheiros
era muito tensa a gravação.
Roquenrou - Mas isso mesmo na época...
Carlos Maltz - Isso, naquela época
mesmo que eu tô falando... Era muito tenso tudo...
Roquenrou - É uma coisa que
você comentou nesse release, que na época do
Simples de Coração vocês estavam parecendo
mais um bando que uma banda...
Carlos Maltz - Não, não,
ali já era outro problema. Mas vamos dizer assim...
no tempo do GLM[Gessinger, Licks & Maltz], mesmo. Sempre
foi muito tensa a gravação. Os Engenheiros sempre
foram uma coisa muito tensa, muito séria, e tal...
Roquenrou - Não é o que
parece, pois sempre tem algumas brincadeiras...
Carlos Maltz - É, mas o clima
era pesado. Mas agora a gente tava numa onda bem mais leve,
sabe?
Roquenrou - Deu pra curtir muito mais...
Carlos Maltz - Deu, deu. Foi muito
mais tranquilo.
Roquenrou - E hoje você é
amigo do Augusto Licks, cara?
Carlos Maltz - Não, o Augusto
Licks eu nunca mais vi, cara. Desde quando a gente se separou
eu nunca mais vi. Nem sei o paradeiro dele, não sei,
é uma pessoa que desapareceu do mapa. É difícil,
eu já tentei até encontrar e tal, mas é
difícil...
Roquenrou - A impressão que
passa é que vocês tinham um relacionamento mais
profissional com ele...
Carlos Maltz - Na verdade a gente
não era amigo. Nem com o Humberto não era. Porque
eu e o Humberto éramos colegas de faculdade, mas um
não ia com a cara do outro, não. Nós
éramos colegas, aí fizemos um show só...
Roquenrou - Vocês precisaram
ficar longe pra ficarem amigos...
Carlos Maltz - Precisou disso, mesmo...
É verdade.
Roquenrou - Que legal. É porque
também quando a gente fica longe é que cai a
ficha, não é?
Carlos Maltz - É, mas também
conforme vai passando o tempo a gente vai peneirando: o que
é fica, o que não é dança. Então
as coisas que são verdadeiras atravessam o tempo. Então
depois de todo aquele tempo, tal, a gente vir a se reencontrar,
fazer música, que é uma coisa que a gente não
fazia naquela época, e participar do disco também.
Então tem as diferenças, cada um pensa do seu
jeito, mas a sente se sente como se fosse uma pessoa da família.
Roquenrou - Você acha que ele
deveria continuar com o nome dos Engenheiros?
Carlos Maltz - Ó, rapaz, aí
já é um assunto que eu prefiro não meter
a minha colher, porque aí já é um problema
dele, né? Eu posso dizer assim: As pessoas me perguntaram
essa questão do bando e da banda, que eu falei que
não era mais uma banda, era um bando. "Que é
isso? O que você quis dizer?" É o seguinte,
eu vejo assim: Banda é como se fosse um movimento estético,
então pra ter uma banda as pessoas... tipo assim, Beatles,
os caras são caras de Liverpool, que têm mais
ou menos a mesma idade, que viviam as mesmas coisas, estavam
dentro daquele movimento da swinging london e tal; os caras
do Pink Floyd eram caras lá da escola de arte, pá-pá-pá,
tinham uma ligação não-sei-com-o-quê...
Então é como se fosse o canto de uma tribo,
cara. A banda é um canto de uma tribo. Então
uma banda pra mim é isso, e isso, naquele momento do
Simples de Coração, já não era
mais isso. As pessoas que estavam ali não eram movidas
por esse tipo de coisa, eram movidas por outro tipo de coisa,
então pra mim, pra ser uma banda, é isso, são
várias pessoas, não pode ser só uma pessoa,
outras pessoas que estão numa outra onda que não
tem nada a ver.
Roquenrou - A gente acessou um site
que não sei se foi você que fez, o www.showz.com.br/carlosmaltz
...
Carlos Maltz - É, foi a gente
que fez, sim.
Roquenrou - ...e ali diz que as principais
influências suas são Raul Seixas, Zé Ramalho
e Renato Russo...
Carlos Maltz - Não, Raul Seixas
não. Zé Ramalho e Renato sim.
Roquenrou - Quem mais você poria
nessa lista?
Carlos Maltz - Pink Floyd, Engenheiros
do Hawaii...
Roquenrou - De Pink Floyd eu não
sabia que você também gostava...
Carlos Maltz - Sim, mas isso aí
era o nosso ponto de ligação...
Roquenrou - E como
rolou a participação do Zé Ramalho no
Farinha do Mesmo Saco?
Carlos Maltz - O Zé Ramalho
é o seguinte: eu mandei uma carta pra ele...
Roquenrou - Como fã, mesmo?
Carlos Maltz - Como fã. Assim:
"Ô, cara, queria dizer que..." Aí eu
fiz até uns trocadilhos, peguei umas letras de música
dele e fiquei falando umas paradas, assim, da música
dele e tal, me apresentando, quem eu era e que... Nem sei
porque mandei essa carta, acho que foi porque eu vi um negócio
que eu achei assim demais e falei: "Preciso mandar uma
carta pra esse cara." E falei: "Cara, pô,
olha só: até eu ouvir o seu disco de 1977 eu
só ouvia música em inglês!" Então,
quando eu ouvi aquilo eu disse: "Caraca! Dá pra
fazer em português também!". Porque a música
brasileira era muito realista até então. Ou
era muito realista, naquela linha Chico Buarque e tal, ou
era muito frofró, tipo Djavan, aquelas coisas, sabe?
Caetano, Djavan... Então, quando veio aquilo, eu digo:
"Meu, isso aqui é do caralho, isso aqui é
o que os caras fazem lá, em português e do caralho
porque é uma parada brasileira, do nordeste, então
eu era fã do cara desde o primeiro disco, desde 77.
Depois teve umas fases assim dele que eu não achei
legal, me afastei um pouco, mas... Aí mandei a carta
pro cara, e ele me mandou um monte de livro e um troço
raro pra caramba, tudo quanto é gravação
dele eu tenho, mandou uns poemas de cordel que ele fez lá.
Aí no fundo ficamos amigos, né? Fomos nos encontrando,
eu ia em show do cara, lançamento de livro, não
sei o quê... Aí quando eu fiz essa música
alguém da banda mesmo, da Irmandade, eu mostrei pra
eles e alguém falou assim: "Cara, essa música
é demais! É muito boa! É sua mesmo? Parece
música do Zé Ramalho!" E eu falei: "Muito
obrigado! E eu vou chamar o cara, de repente o cara topa!"
E ele topou.
Roquenrou - Ele também tem uma
certa espiritualidade nas letras, não é?
Carlos Maltz - É, vamos dizer
assim: eu acho que ele tangencia, né? Tangencia o mundo
não-material, vamos dizer assim. E, sei lá,
ele gostou da música, não sei porquê,
e gravou, né?
Roquenrou - No seu disco dá
pra perceber um tom predominantemente místico, o que
muita gente considera ser uma posição alienada,
conformista. E eu achei particularmente interessante a letra
de Passos do Mundo, que fala sobre seres do espaço
mas é super pé-no-chão, fala pra gente
não buscar a salvação em ninguém...
Carlos Maltz - É, se você
der uma olhada no fórum, no site, o assunto é
esse direto. Tem um fórum ali, tem - sei lá
- duzentas pessoas participando. Hoje em dia nem está
mais se chamando "Fórum Carlos Maltz", tá
mudando de nome, vai passar a se chamar "Comunidade Uns
Manos", já criou vida própria, e o assunto
é metafísico. Agora existe uma nova espiritualidade,
que é a espiritualidade da nova era. Essa espiritualidade,
vamos dizer assim, "fuga da realidade", com a realidade
material pra um lado, realidade espiritual pro outro, isso
é uma coisa já bem ultrapassada, é uma
coisa mais da era de peixes, que é a que tá
ficando pra trás. A espiritualidade da Nova Era é,
por exemplo, Mahatma Gandhi, que é um cara que faz
uma revolução espiritual. Ele derrubou a Inglaterra,
que era os Estados Unidos da época sem disparar um
tiro. Então isso é a espiritualidade da Nova
Era. O espiritualista da Nova Era é um cara que tá
no meio da rua, transformando a realidade aqui e agora. O
Lula, por exemplo, o discurso do Lula tá super espiritual,
cara. Eu não sei se é ele que tá tendo
essas idéias eu se é alguém lá
que tá orientando, ou se ele tá recebendo orientação
do mundo espiritual mesmo, sabe? Mas eu sinto assim que o
cara vem com uma força espiritual, falando de coisas
altas. O discurso do Lula tá... não é
mais aquele discurso socialista, e tal... E eu acho que isso
que arrebatou as multidões. Porque o Lula tá
aí há trezentos anos, né, meu? E de repente
as pessoas começaram a ver uma outra coisa nele, começaram
a ver um outro tipo de caráter, um outro tipo de postura
diante da vida, um outro tipo de respeito pelas pessoas que
estão ali, quer dizer, isso é Nova Era.
Roquenrou - E talvez
tudo isso seja um reflexo disso, né?
Carlos Maltz - Exatamente. Até
mesmo porque o Brasil é a grande potência
da Nova Era. É aqui que estão as coisas, meu
amigo, é aqui que tá o novo, é aqui que
tá a união das raças verdadeira,
porque eles falam que Nova Iorque é Melting Pot, né?
É o caldeirão que mistura as raças, mas
não mistura coisa nenhuma, porque lá é
bairro que só tem preto, bairro que só tem cubano,
judeu pra um lado, não sei o que pro outro... Aqui
não, meu, aqui trepa todo mundo com todo mundo, não
tem essa conversa aí, né? E a gente deve isso
aos portugueses, meu amigo. Os portugueses são pessoas
que não tinham esse problema, transavam com todo mundo.
Transava com índia, transava com escrava, não
tinha esses papo aí. Então gerou realmente uma
raça que é mistura mesmo, cara! Alguém
perguntou numa entrevista aí que achou a letra da Farinha
do Mesmo Saco "muito inspirada" e não-sei-quê,
que "era uma coisa espiritual", e me perguntou como
é que eu tive a "inspiração divina"
para receber aquela música. Eu fiquei até meio
envergonhado de dizer, cara, porque o negócio foi o
seguinte: eu tava lendo na revista Veja, e aí tinha
uma matéria a respeito de uns cientistas que tavam
usando a genética e já tinha condições
de saber o quanto por cento de cada raça tinha no sangue
de cada pessoa aí. Então o cara é 25%
negro, não-sei-quantos por cento branco, sabe uns negócios
assim?
Roquenrou - Nossa, que coisa terrível...
Carlos Maltz - Eu disse: "Mas
que coisa mais filha da puta!!" Eu fiquei com tanta raiva,
cara!
Roquenrou - É, isso é
foda, mesmo!
Carlos Maltz - Tá entendendo?
Aí eu fiz a música de uma tacada só.
A primeira coisa que eu fiz foi o refrão, eu digo:
"Mas que bando de filha da mãe!", aí
saiu: "Há cento e cinqüenta mil anos atrás,
no colo da mãe África, éramos todos negros,
sem dinheiro e sem pátria. Alguns foram pro norte,
outros foram pro sul, esqueceram do vovô macaco, mas
somos todos Farinha do Mesmo Saco". Que conversa
mole é essa?? E aí veio vindo: "Até
mesmo quem você odeia...". Veio toda a letra. É
uma inspiração, assim, né? Então
o espiritualista da Nova Era não é um cara que
fica lá, com uma bata... Esses dias uma mulher me mandou
um e-mail dizendo assim: "Ah, você é um
astrólogo diferente, porque você em vez de ficar
com um turbante cheio de pedrinhas e falando aqueles papo
cósmico, você fala nessa linguagem e ainda faz
questão de falar português errado". Eu tô
aprendendo a falar português errado, meu amigo. Porque
é pra você falar brasileiro, sabe? Aí
a minha resposta pra ela foi a seguinte: "Pra mim esse
negócio de turbante com pedrinha é coisa de
viado!" E é isso aí, meu amigo!
Roquenrou - É, as pedrinhas
não são necessárias!
Carlos Maltz - O pessoal aqui de Brasília
falam que eu sou astrólogo de Bagé, astrólogo
rock and roll...
Roquenrou - Você tá com
esperança no Brasil agora com a mudança de governo?
Carlos Maltz - Rapaz, a minha esperança
no Brasil independe de governo. Agora eu tô assim muito
feliz...
Roquenrou - ...eu não digo "deixar
de ter esperanças", mas no sentido de ter a esperança
renovada...
Carlos Maltz - Sem dúvida nenhuma.
Eu tava até meio indiferente em relação
à campanha. As coisas comigo funcionam assim... Aí
um cara me mandou um e-mail que dizia assim, era a: "Carta
de um pai ao filho", que era uma coisa reacionária,
nojenta, o pai dizendo assim, pro filho não estudar
porque um cara que não tinha estudado ia chegar a presidente
do Brasil. Naquele momento eu entrei na campanha de corpo
e alma, cara! Eu digo: "O quê? Mas que cambada
de filha da mãe!" Aí eu digo assim: Rapaz,
tem um cara ali com a maior cara de nordestinão! O
cara é "Silva". O cara não fez faculdade
nenhuma. O cara é um símbolo, cara! É
um símbolo nessa raça brasileira aí que
é a raça misturada que é a parada nova,
meu! Então eu acho do cacete o que tá acontecendo
aí!
Roquenrou - Voltando um pouquinho pra
música, o que você tem ouvido atualmente?
Carlos Maltz - Eu escuto música
no carro, que é quando eu tenho tempo. No meu carro
tá tocando Bad Religion, toca Bad Religion direto lá...
Eu gosto pra caramba de Bruce Springsteen, gosto muito da
Legião, escuto Legião todo dia!
Roquenrou - Ah, é?
Carlos Maltz - É. Sou fã
da Legião, cara! Pra mim a grande banda do rock brasileiro
é a Legião.
Roquenrou - E banda nova você
tem escutado alguma coisa?
Carlos Maltz - Rapaz, ó, eu
tento, sabe? Mas, assim, é difícil achar uma
que eu goste.
Roquenrou - Mesmo banda independente,
você tem contato com alguma coisa?
Carlos Maltz - Tem muita firula, cara!
Tem muito estilo. O pessoal tá muito preocupado com
firulinha, com estilo, com que roupa que vai usar. Então
eu não tenho muito saco pra essas coisas, não!
Eu gosto mesmo é de verdade, sabe? Então pouco
me interessa se o cara é independente, se é
dependente da mãe, se é da gravadora, eu tô
pouco me lixando, rapaz! Eu quero ver a alma, a áárrma
vibrando. Então eu não vejo muita áárrma
nas coisa não, sabe? Eu sinto assim muita firulinha,
estilinho, a guitarrinha anos sessenta, "o cara comprou
uma fender jaguar"... Muita besteira, cara! Muita viadagem!
Então o troço tá muito na firula. Eu
também não tô por dentro pra saber de
tudo, eu posso estar falando um monte de besteira...
Roquenrou - Tem banda que manda demo
pra você?
Carlos Maltz - Atualmente estão
mandando menos. Teve uma época que mandavam direto.
Roquenrou - O pessoal tende a achar
que quando alguém tem uma gravadora esse alguém
pode ser uma porta...
Carlos Maltz - Eu nem gravadora não
tenho, rapaz!
Roquenrou - Mas quando você tinha...
Carlos Maltz - ..."Porque você
era famoso", tal. Eu não conheço ninguém
na indústria fonográfica. Eu nunca fui amigo
de ninguém, eu nunca fui cheirar cocaína com
aqueles caras, eu nunca comi a mulher de ninguém. Então
eu não tinha essas intimidades. Até hoje não
tenho. Esses dias alguém me falou aí uma coisa
a respeito do Gessinger, que o Gessinger era amigão
de não-sei-quem da rádio. Olha, pode acusar
o cara do que quiser. Pode falar que ele é mala, que
ele é isso, que é aquilo, agora que ele é
amigo de gente das gravadoras, eu digo: "Não é
meesmo!" Não é mesmo, porque é uma
pessoa que não tem essas intimidades. Então
são umas coisas assim.
Roquenrou - A venda e a divulgação
do CD tá sendo feita através da internet...
Carlos Maltz - No momento é
só pela internet.
Roquenrou - Você pensa em algum
outro tipo de venda, como banca de jornal...
Carlos Maltz - Eu sou um camarada
que o que aparecer pra mim aí e for uma coisa que me
sirva eu tô abraçando. Eu não tenho nada...
tipo assim, eu nunca fui muito preocupado com essas coisas.
Se aparecer uma gravadora aí eu vou. Eu só não
tô em gravadora porque nenhuma me quis.
Roquenrou - Mas você também
não vai correr muito atrás...
Carlos Maltz - Não, eu corri
atrás, fui em todas. Peguei CD, larguei em todas as
gravadoras. Mas nenhuma quis. Eu não tenho muito -
na época dos Engenheiros eu já não tinha
- sempre tinha esses papos, gravadora... eu digo: "Gravadora,
meu, é uma fábrica, que nem a Volkswagen".
Eu não fico perdendo muito tempo com essas coisas,
gravadora, fazer uma guerra contra as gravadoras...
Roquenrou - Até porque você
não pode fazer com que a sua produção
musical dependa de estar vinculada à uma gravadora
ou não, né?
Carlos Maltz - Exatamente. É
isso que eu penso. Então eu vou ficar esperando sentado
aqui? Eu já tô com o CD aqui, e se aparecer uma
gravadora eu vou achar do caralho, cara! Agora os caras querem
pegar o meu CD, botar nas lojas aí... Maravilhoso,
um monte de gente vai ouvir isso. E eu acho que é bom
o que eu tô falando, sabe? Então eu quero mais
é que um monte de gente escute.
Roquenrou - Tem alguma rádio
que tá tocando em Brasília? Ou em algum outro
lugar do País?
Carlos Maltz - Tem, mas é mais
umas rádios pequenas, né? Rádio comunitária...
Tem um cara lá não-sei-da-onde que... mandei
um CD pro cara. Aí o cara me manda um e-mail dizendo
assim, que pegou o CD, levou na rádio na cidade dele
e a música chegou em primeiro lugar. Então é
esse tipo de coisa que acontece. Coisas assim meio esquisitas,
né? Não tem uma unidade de ação,
tipo de uma gravadora, né? Mas eu tô achando
legal pra caramba, rapaz. É um esquema amadorzaço,
assim. As pessoas fazem porque elas se entusiasmam.
Roquenrou - Legal. É gente que
veste a camisa.
Carlos Maltz - Gente que veste a camisa.
Todo esse trabalho foi feito assim, né? O próprio
site que eu tenho na internet foi feito por um cara chamado
Anderson Fonseca. É um garoto que veio na minha casa
um dia, eu tava aqui morando no meio do mato, completamente
fora dessas coisas, tudo, e esse cara veio aqui na minha casa,
veio lá de Belo Horizonte, me achou, veio aqui. E me
disse: "Cara, você não pode ficar fora,
porque não-sei-quê, porque sou seu fã,
não sei-o-que-lá. Eu digo: "vá se
fu-dê, eu não quero nem saber dessas coisas".
"Ah, mas você não pode..." Então
eu falei pra ele assim: "Então é o seguinte:
se você fizer um site pra mim - porque ele é
fazedor de site, né? - Tu volta pra Belo Horizonte
e faz um site. Tu fazendo um site eu gravo o disco. E ele
foi lá e fez! Tá lá o site!
Pode ir lá ver que você vai ver, o site
dele! Anderson Fonseca e tal, ele é o cara que fez
o site.
Roquenrou - Aliás foi ele que
entrou em contato com a gente...
Carlos Maltz - É, ele mesmo,
é o Anderson. Ele é um cara que me tapeia, sabe?
Ele vai ler essa entrevista, vai dizer: "Porra, aqui
você falou assim, assim do Humberto, não tem
nada a ver o que você falou", isso isso e isso.
Não é mole não, cara!
Roquenrou - Você ganhou um assessor...
Carlos Maltz - Ah, rapaz! O cara é
o patrão! E nasceu no mesmo dia que eu.
Roquenrou - Olha, que interessante!
Carlos Maltz - Ele nasceu no dia 24
de outubro de 1982, às 18 horas, eu nasci no dia 24
de outubro de 1972 às 18 horas.
Roquenrou - Eu não entendo nada
de astrologia...
Carlos Maltz - Eu sei, mas sabe que
é uma coincidência forte...
Roquenrou - ...claro, eu sei, mas além
dessa coincidência inicial gritante, quando você
vê na astrologia isso influi mesmo?
Carlos Maltz - Claro, claro. O cara
tem o sol no mesmo grau. Então tem uma série
de coisas. Não é à toa que essa pessoa
tem essa identificação e tal, existe toda uma
afinidade aí. Mas mesmo pra uma pessoa que é
leiga, a chance matemática disso acontecer... Não
é? Calcula aí! Desses dois caras terem se encontrado,
né? O que me abriu a porta pra começar a estudar
esse tipo de coisa foram as sincronicidades, esses acidentes
cósmicos que a gente percebe que tem alguma coisa mas
não sabe o que é. Isso me abriu a porta. Então
eu falo isso também pras pessoas no sentido das pessoas
que se interessarem virem por aí também.
Roquenrou - Você era completamente
cético antes, né?
Carlos Maltz - Rapaz, eu era cruzado
da razão, muito mais do que cético. Era cruzado
da razão. Cruzado da razão quer dizer o seguinte:
cada vez que eu ouvia alguém falar de qualquer assunto
místico perto de mim eu saía mordendo os calcanhares.
Roquenrou - Você acredita em
Deus?
Carlos Maltz - Nossa! Eu não
acredito. Eu falo pras pessoas que perguntam "Cê
acredita em Deus?", eu falo: "Não".
Acreditar é tipo assim: você pode acreditar que
a inflação vai cair, que o pessoal lá
do Antônio Carlos Magalhães não vai conspirar
contra o governo Lula, pode acreditar nisso, se você
quiser. Que o Brasil ia ganhar o Pentacampeonato com aquele
time - e ganhou o pentacampeonato. Isso são coisas
que você pode acreditar ou não. Em Deus não
tem necessidade de acreditar, pra mim, porque é uma
realidade. Deus é tudo quanto há. O meu conceito
de Deus é o que tá na música Quase uma
Oração. Deus pra mim é aquilo ali. Então
não é um cara que tá lá no céu.
Se você quer entender o que eu acho de Deus é
o que tá lá naquela música. Então
aquilo ali não precisa acreditar naquilo. Aquilo ali
é. Deus é.
Roquenrou - Aquela imagem de que Deus
é uma pessoa controlando a vida de outras pessoas...
Carlos Maltz - E esse é o conceito
de Deus, né? É a noção de Deus.
Eu respeito todas as religiões, todos os conceitos,
todas as maneiras de compreender isso, porque é uma
coisa que realmente não é compreensível
pra nós em termos claros. Então pra mim, sei
lá, tanto faz. O cara lá na Índia acredita
que a força não sei-o-quê... Pra mim tá
tudo bem. A minha noção do que Deus seja tá
lá naquela música, então pode ser tudo
aquilo que tá falando ali. E uma pessoa me perguntou,
também, numa entrevista: "De onde é que
eu tirei aquela música ali, né? Como é
que aquelas imagens foram aparecendo? E aquilo ali eu tava
sentado numa praça, cuidando de uma criança
que tava brincando de esconder. O menininho tava brincando
e eu tava imbuído pela mãe dele de cuidar daquela
criança. Então eu tava vendo um monte de coisa
que tava acontecendo ao meu redor. Sentou um cara do meu lado
e começou a falar uma história, que tinha saído
com uma garota de programa e a menina queria beijar ele, então
ele não beijou ela. "Imagina que eu ia beijar
aquela vagabunda!" Nisso, eu vendo as crianças
brincarem, e pensei assim: "Caraca! E se ela fosse Jesus
disfaçado?" E nisso tinha um cara, um mendigo
que tava do outro lado da rua e eu olhei e pensei: "Caraca,
aquele cara ali ele não acredita em Deus, ele está
em Deus, ele é, porque ele tá dormindo embaixo
do céu, cara! O cara tá na confiança
total. E aí foram aparecendo todas as coisas, e depois
veio aquela imagem: "Deus pode ser alguém que
nunca pôde ser criança e brinca agora de esconder".
Essa coisa da gente achar que Deus não existe, né?
Mas quem acha isso aí é nóis,
porque ele tá aí o tempo inteiro.
Roquenrou - Você acha que no
ano 2000 ia acontecer ou aconteceu alguma coisa especial,
mesmo?
Carlos Maltz - Sim, veja bem: na verdade
essas coisas da astrologia, as pessoas esperam acontecimentos
catastróficos e hollywoodianos, então "o
fim do mundo é na virada no milênio". Bom,
aí chega lá na data e não acontece nada.
Então eu conto a história, por exemplo, do que
aconteceu por volta de mil quatrocentos e cinqüenta e
pouco, e foi também numa data dessa que falaram que
ia ser o fim do mundo. Então chegou na data lá
e não aconteceu nada. E aí naquela época
a situação era pior, porque os astrólogos
iam pra fogueira mesmo. Nego errava previsão, cortavam
a cabeça fora...
Roquenrou - Mas se ele acertasse a
previsão era capaz de acontecer a mesma coisa...
Carlos Maltz - É, exatamente,
[risos] a situação era um pouco apertada. Então
o que acontece, foi o ano, a data de nascimento de Martinho
Lutero [1483-1546, fundador da igreja protestante], então
através de Martinho Lutero teve um mundo que acabou,
que foi o mundo no qual a Igreja era inquestionável.
Isso aí é compreensível pra quem tiver
condições de observar a história, do
que aquilo significa e tal. Então realmente teve um
mundo que acabou. Pode ver, até aqui, com a eleição
do Lula, tá todo mundo alegrinho, e tal, mas tem um
mundo que acabou. Nós estamos entrando numa outra fase.
O dia 11 de setembro de 2001 é um marco disso, teve
um mundo que acabou ali, cara, o mundo da inviolabilidade,
quer dizer, os caras era intocáveis. Inclusive tá
representando o que pode vir a acontecer na frente. Então
teve um mundo que acabou, mas não é que o mundo
vai acabar. Porque o mundo, meu amigo, se acabar o mundo vão
fazer o quê com a sucata? Então a loucura é
mais embaixo, mas as pessoas querem acontecimentos, coisas
e tal, "morreu um monte de gente!", aquelas coisas
assim. Então: "Ah, tá vendo? É tudo
mentira desses caras!". A astrologia é uma ciência
muito profunda, mas é uma ciência que não
tá em sintonia com a velocidade da mídia hoje
em dia. A mídia hoje em dia quer assunto rápido,
imediato, instantâneo. Uma vez eu vi uma entrevista
do... acho que do Malcolm Young, guitarrista do AC-DC, aí
o cara perguntava assim: "É verdade que a banda
vai acabar esse ano?". O cara falou assim: "Que
eu saiba não". Aí o rapaz falou: "Não,
mas e os boatos, e tal, que tão saindo na imprensa?".
O cara falou assim: "Mas você quer que os caras
publiquem o quê? Que estamos bem entre nós, com
as nossas famílias, todo mundo se dando bem?".
Então tem essas coisas. É a velocidade da mídia,
que quer fatos e coisas bombásticas, hollywoodianas.
Roquenrou - É, a mídia
tem mesmo essa necessidade, de procurar notícia muitas
vezes onde não tem...
Carlos Maltz - Exatamente. As coisas
da astrologia, elas têm outro tempo: quinhentos aaaanos.
Os caras me ligam aqui:
- Quando é que começa a era de aquário?
- Daqui a 500 anos
- Ooooohh
Né? Uma decepção. "Porra, daqui
a 500 anos?? Eu vou ter que publicar o jornal amanhã!!
Não tem nada acontecendo aí que eu possa dizer?"