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especiais
Entrevista - Humberto Gessinger |
O
que tu tem de interessante
é o que tu tem de errado
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Tarde
de domingo. Ronaldo Branco, Rodrigo EBA!, Arthur Tofani
e Paulo Roberto se mandaram pro distante Sesc Interlagos,
onde rola ao vivo o programa Bem Brasil, da TV Cultura.
Após o show dos Engenheiros do Hawaii para o programa,
Humberto Gessinger conversou com a gente no camarim e
falou tanto que a gente quase não precisou fazer
perguntas!! E assim como toda a sua obra, muito
do que ele fala
parece que é pra ser interpretado de duas maneiras,
portanto ao ler não se prenda a apenas uma ótica. |
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Rodrigo
EBA! - Pra começar vamos falar do disco novo,
"Surfando Karmas & DNA"...
Humberto
Gessinger - Pois é, a gente tá super satisfeito
com o disco, estamos viajando com ele desde o início
do ano. Ele foi gravado assim de uma maneira diferente. Geralmente
eu parava de fazer show, entrava no estúdio. Este ano
a gente estava bacana na estrada e tava querendo amadurecer
mais esta formação, a gente foi gravando aos
poucos sem parar de fazer show. Pô, foi um processo
maravilhoso que eu quero fazer sempre, agora. Pra não
cair naquele iglu que é o estúdio, quando tu
pára de fazer show. Eu acho que essa coisa de estar
na estrada enquanto gravava o disco trouxe um pouco desse
som pro disco. E também a formação, quer
dizer, duas guitarras, sem teclado, acho que soa mais cru.
Mas eu nunca vejo... eu tenho a maior dificuldade pra ver
diferenças dos discos passados. Sempre perguntam qual
é a diferença eu até procuro pra responder
as perguntas mas eu vejo continuidade no trabalho dos Engenheiros,
e gosto que seja assim. Os artistas que eu gosto têm
essa parada. Por mais que mudem de ambiente, de formação,
têm uma coisa de continuidade que é o que eu
mais presto atenção.
Rodrigo
- Você
acha que tem essa continuidade mesmo com as mudanças
de formação dos Engenheiros?
Humberto
Gessinger - Puta, espero que tenha, cara! Porque os artistas
que eu gosto têm isso, sabe?... O negócio de
novidade é uma deformação que vem do
modernismo, não é nem pós-moderno, é
anterior... Mas a novidade é boa pra vender jornal,
mas não é muito boa. Pode ser boa, mas não
é necessariamente boa. E o que eu sinto a maior falta
no Brasil... é que eu vejo que a fila não anda,
entendeu? Três, quatro anos anos atrás a gente
estava tocando aqui, neste mesmo lugar, com uma banda gaúcha
também, no maior gás achando que ia rolar, como
o Cachorro Grande, uma baita banda tá nesse gás
mas eu vejo que não anda a fila, cara. E aquela geração
dos 80 ainda fica como a geração... Isso é
uma merda pra nós, entendeu, cara? Eu tô com
38 anos, quer dizer, eu gostaria que a fila andasse, entendeu?
No submundo tudo anda, tem um monte de bandas, mas eu digo
assim, pô, tocar em rádio popular mesmo, pra
minha empregada ouvir Cachorro Grande. A gente precisa isso,
quer dizer, a gente fica torcendo...
Rodrigo
- Mas por que você acha que rola isso?
Humberto
Gessinger - Eu sinceramente acho que os caras que estão
no topo da indústria têm medo de renovação.
Eu acho que é isso, assim.
Arthur
Tofani - Aí a gente chega na mesma idéia
de eles ficarem selecionando o que tocar na mídia.
Mas é que se eles tirarem dali pode não dar
certo...
Humberto
Gessinger - É, eles não sabem nem... bicho!
Agora eu não queria falar que nem o Lobão fala:
"A indústria é um mal e o artista é
um santo". Eu acho que os dois são bons e ruins,
mas a indústria é a Indústria. Isso que
a gente se esquece. Tem um certo romantismo que quer que a
indústria seja artesanato. Não, cara, eles não
estão nem aí. E eu quero mais é que eles
não estejam nem aí. Quem tem que manter a
arte viva são os artistas, não é a indústria.
A indústria vai pegar e vai... E tá ficando
cada vez mais isso, eu sinto em relação a mim.
Os caras nem metem o dedo mais, eles sabem que eu vou criar
uma coisa e vão tentar vender essa coisa, é
um ambiente bom. Eu tenho pena de alguns artistas que não
conseguiram isso e ficam brigando com a indústria.
Rodrigo
- E no começo foi difícil essa conquista?
Humberto
Gessinger - Nunca foi porque a gente é super limitado,
quer dizer, tecnicamente limitado, intelectualmente limitado,
então eu fico pensando: se eu fosse presidente de uma
gravadora e quisesse trocar de carro no fim do ano em cima
dos Engenheiros, o que eu iria dizer, cara? Pros Engenheiros
serem uma boy band não dá, pra ser mais pop
não dá, pra ser mais rock não dá...
eu deixaria os Engenheiros fazerem o que eles fazem.
Arthur
- Você acha que então é mais interessante
fazer o nome cozinhar um pouco durante um certo tempo...
Humberto
Gessinger - Banda nova?
Arthur
- É.
Humberto
Gessinger - Bicho, completamente! Eu tô fazendo
isso, cara!
Arthur
- E depois que a banda estiver fazendo tudo com os próprios
pés pegar e fazer o que quiser...
Humberto
Gessinger - A indústria não tem mais poder
de criar nada. Há um tempo atrás tinha isso,
por exemplo, a MPB foi uma criação da indústria,
cara. Mas, porra, graças a Deus, uma criação
boa, mas eles não têm mais inteligência,
fôlego. Eles estão mais acuados do que a gente,
cara. Então eu acho que cada um tem que fazer a sua
história. Tem um fenômeno que é ambíguo
que eu tendo a ver com um certo interesse, que é o
lance da regionalização. Porto Alegre tem uma
cena super forte de rock. Mas aí tu vai pra Fortaleza
também tem uma cena, Recife, Espírito Santo.
A primeira reação que tu tem é: "Porra,
que legal!". Depois tu começa a ver que essa cena
não tá se renovando. Não tem oxigênio
no Brasil pra tu viver regionalmente, infelizmente, cara.
Tem na Bahia, só, porque tem muita circulação
de turista, uma música export, pra exportação.
Cara, eu fico torcendo pra esse pessoal meio que romper a
barreira, onde vários núcleos vão se
criar - os roqueirinhos do sul, os não-sei-o-quê,
não-sei-o-quê -, e aí os ambientes vão
começar a dialogar entre si. Eu fico falando com o
Bernardo, que toca comigo, ele produz umas bandas no Rio.
Eu digo: "Cara, tudo bem, faz a tua cena, mas tu tem
que começar a dialogar". Eu acho que vai acontecer
isso, esses selos locais vão começar a dialogar
e criar uma coisa por baixo da gravadora. E daqui por diante
a gravadora só vai existir por um número exorbitante,
quando faz o crossover, Britney Spears, Guns n' Roses, quando
o cara começa a tocar para mais do que o seu segmento.
Porque antes os caras não têm como, são
um posto de gasolina. E é melhor que seja assim...
Rodrigo
- A rádio não seria uma barreira pra se
conseguir sobreviver antes de chegar na gravadora?
Humberto
Gessinger - Sim, mas eu digo o seguinte: Eu conto com
a massa crítica no sentido das pessoas começarem
a questionar a rádio, também. Eu não
tenho mais rádio que me satisfaça em Porto Alegre.
Então eu tô precisando de outra rádio,
cara. E tem muita gente precisando de uma nova rádio.
E a nova rádio vai pintar que nem a nova gravadora
pinta. Agora, é um negócio pequeno... Porque,
porra, isso foi uma teta, durante muito tempo pra indústria
fonográfica no Brasil, sabe? Muita grana fácil.
Então a gente tem que começar a pensar mais...
Que nem futebol, cara! No Grêmio o cara recebe 120 mil.
Se o cara disser: "Legal, do caralho, quer ganhar quarenta?".
Bicho, quarenta é um puta salário!!! Quarenta
mil pra chutar uma bola, cara!? Eu acho que a indústria
musical vai ter que entrar nessa onda também e tu vai
ver lá fora, cara, o Cazuza tinha aquela, "Meus
heróis morreram de overdose...", eu tenho a minha
música: "Meus heróis estão sem gravadora!".
Joni Mitchell tá sem gravadora! Os caras ralam o cu
também! Mas é bacana, porque traz todo mundo
pra baixo, assim. Nos anos 70 teve um boom internacional de
venda de disco, que foi quando o Eagles viajava com um case
só de champagne. A gente tá ainda com
essa cabeça... Por que que o cara que faz música
deve pensar diferente do cara que faz cheeseburger?
Não é muito diferente, entendeu, cara? Eu conto
com essa baixada de bola. Agora quem viveu ao esplendor reage
um pouco a isso.
Arthur
- É, mas hoje em dia isso acaba ficando cada vez
mais esquecido, né?
Humberto
Gessinger - É.
Arthur
- Da mesma forma a gente que acompanhou do lado de fora
da coisa...
Humberto
Gessinger - E o que a gente tem que respeitar é
assim, ó: tem um monte de gente que não tem
uma relação profunda com a música, a
música não é tão importante pra
eles quanto é pra mim, então não tem
problema que eles ouçam Sandy & Jr, por exemplo.
É natural, é uma maneira de se ligar com a música.
A gente tende a pensar em mudar o mundo pra melhor, então
a gente quer pessoas mais sensíveis, mais ligadas à
arte. Eu não sou do cara que fala: "Pô,
roquenrou é melhor que pagode". Não sei,
depende do roquenrou, depende do pagode. Mas eu acho, cara,
que tem uma visão progressista, que quer que a realidade
progrida e que tem que se apoiar muito na arte, e tem uma
visão reacionária. E eu sou a favor da visão
progressista. Eu acho que nada vai segurar isso aí.
A gente precisa dos artistas, sejam de pagode, sejam de rock.
Essa discussão de pagode ou rock não me interessa.
Às vezes os caras: "Ah, fulano falou que pagodeiro...",
sei lá, cara!! Pra mim pagodeiro é que nem bluesman,
tem a ciência deles, sabe? Agora, tem as pessoas que
são da reação e tem as pessoas que são
do progresso, entendeu, cara? Tem as pessoas que são
homofóbicas, quer dizer, Eminem, pra mim, esse é
escroto, cara, é um cara homofóbico, não
é do progresso, entendeu, cara? Então acho que
o corte deve ser feito nesse sentido, mas do que no sentido
de estilo. É que infelizmente eu não vi nenhum
pagodeiro com o papo legal, assim, mas eu acho que é
porque não deixaram crescer. Mas pô, tipo na
condição deles, os caras vivem numa situação
econômica bem pior, o rock dos anos 80 foi todo feito
por uma classe média branca, o pessoal que tem uma
certa estrutura e tal. Pra quem vem mais de baixo não
é fácil também, cara. Então tem
que entender isso assim, também. Mas se for ver os
bluesmen americanos dos anos 50, o pessoal que os Beatles
ouviam, também não eram pessoas muito libertárias,
eram meio que a fim de uma graninha, né? Mas eles tinham
uma coisa do som deles que a gente tem que preservar.
Arthur
- É, mas acho que naquela época eles mais
se destacavam e a partir disso as gravadoras pegavam..
Humberto
Gessinger - É.
Arthur
- E hoje em dia é diferente, por exemplo, fazem
grupos de pagode...
Humberto
Gessinger - É, mas o pré-fabricado... Em
princípio o pré-fabricado é uma merda.
Arthur
- ...mas o problema que quem se incentiva com isso se
incentiva com os pré-fabricados, se incentiva a partir
de uma coisa que já é ruim por natureza.
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a
fila não anda
"Quem tem que manter a arte viva são os artistas,
não é a Indústria"
o
sonho é popular
"O Wando é daqueles gordo bluesman cego"
independentes
"Em vez de ser obrigado a tirar a carteira da Ordem dos
Músicos, todo mundo deveria ser obrigado a colar o
próprio cartaz
show
do roger waters
Cara, eu sentei na frente de três bebuns, os caras
eram do Interior do Rio Grande do Sul... Eu fiquei meio de
tradutor
anos
80
Paulo Ricardo acho um bom artista que toma atitudes
erradas na carreira.
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Após
o fim do
programa Bem Brasil,
os Engenheiros ainda voltaram para o bis.
"Nosso vôo é
só às 8 e meia,
podemos ficar até às
6 e meia com vocês"
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o sonho é popular
Humberto
Gessinger - É, é engraçado, eu falo
pros caras assim, eu tenho uma filha de dez anos e converso
com um monte de gente que vem cheia de orgulho e diz: "Pô,
meu filho só ouve Beatles, só ouve Eric Clapton",
como se fosse uma grande bosta. A minha filha, cara, eu não
deixo chegar perto dos meus discos, nunca mostrei um disco
pra ela, eu quero que ela ouça o que a média
tá ouvindo, eu quero que ela seja educada que nem uma
boiada. Por quê? Se ela tiver algo de especial vai vir
por si, não vai ser o pai que vai dizer: "Ouve
aqui!". Tem que vir por ela, entendeu, cara? Ela tem
que ouvir a mesma merda que todo mundo ouve. Eu ouvia a mesma
merda que todo mundo ouve. Eu pincei os Incríveis,
cara, é uma merda, mas na minha cabeça aquilo...
sabe? Ela vai pinçar os Incríveis da cabeça
dela. Se ela tiver alguma coisa musical, alguma loucura, ela
vai desenvolver. Eu acho bobagem endeusar os caras que também
são música pop, não é? Os Beatles,
Rolling Stones, Eric Clapton... Endeusar é ir contra
eles, é criar uma igreja, é deixar eles com
as mãos presas, por isso que eles ficam burros, ficam
velhos, ficam gordos, porque ficam endeusados. Os caras que
se escaparam dessa poeira... Neil Young é um cara que
tem isso, cara, ele escapou dessa poeira, porque nunca foi
time A, ele sempre foi classe B. O Rush sempre foi classe
B, nunca foi time A do progressivo. Neil Young sempre foi
o genérico do Bob Dylan. Esses caras às vezes
conseguem ser alguma coisa mais esperta, assim. E eu acho
que a gente deve mergulhar completamente no lance popular,
assim. Me interessa muito mais o que a minha empregada tá
ouvindo do que o que tá saindo no jornal, porque eu
entendo o raciocínio de quem escreve em jornal. Eu
sou assim, eu sou universitário, cara. E num país
que não tem cinema e não tem literatura que
nem o Brasil, nesse bordel que é a indústria
cultural, futebol e música pop são as putas
mais baratas, cara! Qualquer um fala sobre futebol e sobre
música popular. Hoje de noite tu vai ligar a TV na
mesa redonda e todos os intelectuais que não têm
onde escrever, não têm onde encenar peça,
não têm onde fazer porra nenhuma vão falar
de futebol. Porque são as putas mais baratas! Nós
não temos cinema, não temos literatura, não
temos porra nenhuma, os caras não têm coragem
de falar de novela, falam de música popular. Mas a
gente sabe. Eu sou também classe média universitária.
Esse papo que sai no jornal eu sei tudo antes de sair. Agora
a coisa popular tem uma ciência que a gente tem que
ficar atenta a ela. Tem uma ciência. Pô, a relação
que as pessoas têm com música é uma coisa
muito séria, não é assim pra ficar menosprezando.
Por isso tem que saber separar bem a picaretagem de gravadora,
escroto total, mas os artistas populares tem que respeitar,
porque...
Arthur
- Se as gravadoras começassem a colocar um monte
de música sofisticada e complicada a aceitação
não seria boa porque as pessoas não iriam conseguir
entender.
Humberto
Gessinger - Bicho, se gravadora mandasse no mundo Wando
não vendia um disco. Ed Motta venderia mais do que
Wando. Eles tentam vir com Ed Motta, eles tentam vir com Lenine.
Como é que pinta um Wando, cara, me explica? Nem pra
roadie ele pega aqui. E é um puta de um cara que tem
uma ligação direta! Porra, ele tem uma ciência,
bicho, é muito louco! O Wando é daqueles
gordo bluesman cego, sabe, cara? Daí vem um cara:
"John Lee Hooker!" Porra, que porra esse cara vai
ganhar do Wando, cara? "Você é luz",
o Brasil faz inteiro assim, cara: [ilustrando com as mãos
o Brasil respondendo] "É raio estrela e
luar"!! Cara, esses caras têm uma conexão.
Eles nem sabem, o problema é isso. Eles não
dão o passo que a música pop fez nos anos sessenta
que é artista tomar conta de seu processo, quando os
Beatles, aquela geração, começou a inventar
o combo auto-sustentável: eu toco, eu canto, eu componho.
Aí foi um passo maravilhoso. Antes era o cantor, o
cara que compunha, o compositor profissional... Aí
os Beatles criaram aquilo, já dançou. Aerosmith,
por exemplo, que na minha época era uma banda medíocre,
classe C, cara, nem genérico pegava, hoje está
estourando porque... é pré-Beatles, eles têm
os compositores profissionais, entendeu, cara? O guitarrista
não gosta dos singles deles, cara.
Ronaldo
Branco - É mesmo?
Humberto
Gessinger - O cara deu uma entrevista dizendo que daqui
a 10 anos ninguém vai se lembrar desses singles que
eles estão cantando...
Arthur
- Também porque as músicas ficaram todas
iguais, né?
Humberto
Gessinger - É. Então nesse sentido a gente
regrediu. Eu acho que foi uma fase áurea a fase do
combo. Tipo, os Beatles não inventaram isso mas foi
a expressão maior, quer dizer, nós somos uma
unidade auto-sustentável. A gente compõe, a
gente canta, a gente toca, a gente sai na foto, a gente é
engraçado. O que o João Gilberto é, entendeu,
cara? Eu acho que uma maneira de se voltar a conectar isso,
cara, e se desnudar, violão e voz dá uma conexão
com isso. Eu acho que isso que dá força na indústria
pro artista é essa coisa auto-sustentável. Onde
a indústria começa a se movimentar - fulaninho
vai compor pra ti, ciclaninho vai bater a foto, e o fulaninho
já tem um namorado pra ti -, e aí a indústria
toma conta, aí que é o pré-fabricado
e não interessa. Mas se tem o pré-fabricado
pagode, tem um monte de banda alternativa, um monte de banda
cantando que nem o cara do Pearl Jam, tu vê que um Poladian
montou eles. Então o corte tem que ser feito nisso,
não no estilo de música, mas qual é o
processo de criação. Quanto mais artesanal,
melhor. Que nem comida. Não interessa se é salgadinho,
se é salada, mas se é artesanal, é a
melhor coisa.
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Todos
com
papel e caneta na mão,
esperando uma oportunidade
pra falar com os Engenheiros...
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independentes
Rodrigo
- A cena independente faz muito isso, não é?
De fazer o próprio cartaz, o amigo vai lá cobrar
ingresso...
Humberto
Gessinger - Exatamente! Isso deveria ser obrigatório!
Em vez de tu ser obrigado a tirar a carteira da Ordem
[OMB, Ordem dos Músicos do Brasil], todo mundo deveria
ser obrigado a colar o próprio cartaz. Eu fiz isso
um bom tempo. Bicho, a gente fazia aquela cola de Maizena.
Tu colava de madrugada, ficava uma crosta [nas mãos],
a gente ia tocar, não conseguia tocar. Isso é
música! Na Idade Média era assim, o anúncio
do rei o cara colava num poste. Hoje em dia tá tudo
pré-fabricado. Eu, com menos de cinco anos não
sei te dizer se uma banda é legal pra caralho ou não,
qualquer banda. Tem muita picaretagem. Tu tem que saber como
é que se desenvolve na história. Eu sou super
lento pra sacar banda.
Rodrigo
- Você escuta muita demo?
Humberto
Gessinger - Cada vez menos, graças a Deus. As demos
eu tento não ouvir porque as que eu recebo, o corte
delas é sempre focado em mim, é sempre "acho
que tem tudo a ver com vocês". Então a maior
parte delas é meio que um espelho quebrado, empoeirado
do que eu faço e eu não quero saber qual é
o estereótipo que eu passo, então eu tento não
ouvir. E eu não sou Titãs, que um faz filme,
outro escreve livro, outro escreve na TV Futura, o outro vai
ser presidente de gravadora. Eu sou solitário, eu faço
minha música, eu não tenho nenhum canal com
a gravadora, cara. A primeira vez que eu me encontrei com
o presidente da gravadora eu tinha ganhado três discos
de ouro, ,já. Eu não quero nem saber. Então
os caras me mandam e eu não tenho como ajudar os caras.
Eu não vou montar um selo, eu não quero ser
um presidente de gravadora alternativa, pra mim é tão
ruim quanto ser um presidente de gravadora mainstream. Então
eu não ouço nesse sentido, mas tento dar um
toque nos caras, por exemplo, fechar o phono, não ficar
muito ouvindo opinião, o que tu tem de interessante
é o que tu tem de errado, na verdade. O que tu tem
de certo 250 guitarristas vão ter de certo igual a
ti na G&T, nessas escolas de música. Tu tem que
procurar a tua doença. Os artistas que eu gosto são
assim. Sempre que uma banda começa, pode ver, assim,
ó... "sou igual a quem o pessoal procura".
Quando a gente começou queriam dizer que a gente era
o Paralamas do sul, o Sting, o Police do sul... É a
pior fase pra uma banda. E eu já vejo as bandas um
pouco conformadas com esse processo, querendo ser parecidas
com alguém. Tem que fugir desse lance o máximo
possível, cara. Às vezes é inevitável
porque o mercado precisa de um atalho. Mesmo quando tu fala
sobre disco com alguém, tu diz: "Ah, é
parecido com tal", né? É natural, mas a
banda tem que fugir disso.
Rodrigo
- Eu acho isso uma coisa principalmente da imprensa escrita,
que tem essa necessidade de comparar pra descrever a banda...
Humberto
Gessinger - Tem, é. Se ele perguntar como é
que é o som de tal banda eu vou dizer: "É
parecido com..." É um atalho, né? Isso
é uma coisa pra quem ouve, agora quem faz tem que fugir
disso. Até porque às vezes tu quem alguma coisa
parecida mesmo e por pudor tu quer ficar diferente, mas causa
um gesto artificial. Por isso que eu não leio crítica
também, não é por arrogância é
porque a tendência natural é tu ler uma crítica
e querer responder musicalmente. Isso é o pior erro!
Se o cara diz assim: "Tu é muito loiro",
aí tu vai querer ser moreno. Tu tem que ignorar isso.
É difícil porque acaba chegando em ti, mas eu
acho que artista tem que ser burro, cara.
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show
do roger waters
Ronaldo
- Mas uma crítica negativa não te deixa
puto?
Humberto
Gessinger - Não. Eu fico mais puto quando criticam
artistas que eu gosto.
Rodrigo
- Você toma as dores?
Humberto
Gessinger - Puta, cara! Eu vi uma vez uma crítica
de um disco do Roger Waters, me deu vontade de ir pra Londres
reclamar, sabe? Eu entendo quando falam mal do teu trabalho.
É uma força que me dão. Tudo que falam,
que acontece na tua vida, vai te direcionando. Mas tem uns
caras que eu ouço que eu sei que a viagem deles não
é pra ser lida daquela maneira, sabe? Cara, quando
chamaram o Roger Waters de new age, eu disse: "caralho!!"
Arthur
- Mas isso foi no disco atual?
Humberto
Gessinger - Foi no "Amused To Death". Tudo bem,
diz que é ruim. Ruim é legal, quer dizer, é
ruim, mas não pode tentar classificar como uma coisa
que não seja.
Arthur
- Ah, eu acho que se o Pink Floyd lançasse alguma
coisa depois do "Division Bell" ia ficar na mesma
prateleira da Enya.
Humberto
Gessinger - Ã? Ah, não! O Gilmour sim, mas
é porque é um cara que é vinculado com
a forma, e não com o conteúdo, né? Mas
o Waters pode ser que envelheceu - o Waters é o que
eles chamam de surdo de tom, ele não consegue cantar
parabéns pra você, tone deaf que eles
chamam -, mas construiu uma baita carreira, que nem Lou Reed
tocando guitarra, que nem Neil Young tocando guitarra.
Arthur
- Ah, mas ele até canta...
Humberto
Gessinger - Eu acho. Ele canta pra caralho, muito melhor
que o Ed Motta, por exemplo. Mas o Gilmour já ficou
com a banha, assim. Mas o que eu tava falando é que
me irrita mais quando é de alguém que tu leu,
porque o teu trabalho sai da urina. E até cria a mística.
Esse bando de gente que tava aqui [no show] é um bando
de gente que leu crítica, que foi num show, achou do
caralho e leu na segunda seguinte uma crítica ruim.
O cara fica mais fã ainda. Eu vou no jogo do Grêmio,
o Grêmio arrasa o jogo, eu compro o jornal, "o
jogo foi morno", cara, eu sou muito mais gremista!!
Arthur
- Há casos de gente que paga pra você fazer
uma crítica não muito construtiva...
Humberto
Gessinger - Se eu tivesse dinheiro até pagaria,
dependendo de quem fala mal...
Rodrigo
- É. Tem gente que tem credibilidade negativa...
Humberto
Gessinger - É. Tu tem que te focar, cara. O segredo
é estar focado. Parece papo de motivador emocional,
mas tu tem que estar falando pras pessoas que estão
interessadas no que tu quer dizer. Porque o mundo é
muito vasto. Cabe Enya, cabe cara que quebra amp ainda, 60
anos depois do The Who...
Arthur
- Tem 6 bilhões de pessoas, tem espaço pra
tudo...
Humberto
Gessinger - Tudo, cara. Tudo. Pô, tem fã
do Mark Chapman, fã do Osama Bin Laden, é meio
doentio, mas tem pessoas que tu vai falar e que vão
estar interessadas no que tu diz. Quando beira a censura...
quando a gente tava estourado a gente foi fazer um show em
São Paulo e não saiu nem naquela coluna "Roteiro".
Aquilo me dava um pouco de medo, porque tu sentia que além
de falar mal era a censura.
Rodrigo
- Quando você fala dos "censores sem poder
de censura" é sobre isso...
Humberto
Gessinger - É, porque aí é censura,
na coluna de roteiro, que que está acontecendo? Mas
eu já vi que os jornais hoje em dia têm medo
de mentir tanto, já vão mais ou menos no foco.
É o guia telefônico, quem tá tocando.
Mas acho bom marcar posição, assim. Acho...
Não sei se eu tento fazer do limão uma limonada
ou acho bom mesmo, mas eu tendo a achar bom.
Rodrigo
- E você foi no Roger Waters?
Humberto
Gessinger - Fui, fui, fui. Fazia duzentos anos que eu
não via.
Rodrigo
- E como é que foi?
Humberto
Gessinger - Cara, eu sentei na frente de três
bebuns, os caras eram do interior do Rio Grande do Sul,
aí me reconheceram, [batendo na cadeira da frente e
imitando os caras] "Tá legal, né?".
Eu disse "tá legal". [bate de novo] "Mas
não tá igual ao disco, né?"
Eu fiquei meio de tradutor. O pessoal que tava comigo
queria bater nos caras. Eu disse: "Não, deixa".
Então, no show, eu mais assisti os caras, que era uma
coisa que me interessava, também, saber como é
que um cara via um show, o que ele achava. Três dias
depois eu encontrava com uns caras na rua - saiu uma matéria
lá sobre o show, os caras sabiam que eu era fã
- então eu andava na rua e os caras me perguntavam
sobre o show. Foi uma experiência interessante, porque
as questões eram meio absurdas: "Bah, cara, o
cara precisou de três guitarristas pra fazer o que o
Gilmour fazia". Pô, o Gilmour... Mas foi uma maneira
de saber como é que o ouvido comum saca música,
né? Mas o show em si não deu pra ouvir, cara,
porque o cara ficou batendo nas minhas costas o tempo inteiro:
[toc, toc] "Aí, ó! Essa música
é do disco novo, né?".
Arthur
- Eu vi os caras reclamando que colocaram aquela mulher
pra tocar o Comfortably Numb. "Fica muito melhor com
o Gilmour cantando"...
Humberto
Gessinger - É, pode crê. E aí aquela
reação que a música nova, tu via que
o nível de conversa ia aumentando, aí vinha
música do Dark Side, "UU-HUUU - UU-HUUU".
Legal - era um megaevento - saber como é que a música
é tão pouco relevante na cabeça das pessoas.
Elas vão num show, na verdade não é muito
importante a música.
Rodrigo
- É mesmo, tem gente que vai num show só
pela bagunça...
Humberto
Gessinger - É. Bicho, tem uns caras que jogam coisas
no palco e tu acha que eles estão putos e depois que
jogam eles fazem assim pra ti, ó [faz sinal de positivo].
É muito louco. Os caras vão pra bater. Eu sou
pré roupa Cavalera, pré Beavis and Butt-Head,
esse negócio de comer tatu eu não acho muito
legal, sabe? Mas tem uma molecada aí, a gente tem que
saber que eles comem tatu, né? Os caras se batem, tem
uns caras que gostam de levar soco. Eu não sei muito
bem que energia eles estão canalizando pra esse lado.
Mas, enfim, é que eu já tenho 38, tenho uma
outra visão.
Rodrigo
- E você considera o Roger Waters mais Pink Floyd
do que o Pink Floyd atual?
Humberto
Gessinger - Ah, o que eu ouço do Pink Floyd é
o Roger Waters, é..
Rodrigo
- Comparando, por exemplo, o show do Roger Waters com
o Pulse.
Humberto
Gessinger - Não, completamente. Eu acredito no
fator humano...
Rodrigo
- Porque a maioria das pessoas encaram como se o Waters
fosse um consolo de não se ter o Pink Floyd no Brasil...
Humberto
Gessinger - A maioria das pessoas acha que o Gilmour faz
um show melhor. A minha irmã, por exemplo, se a minha
irmã perguntasse: "Quem é que eu vou ver,
o Gilmour ou o Roger Waters?", sem dúvida eu mandaria
ver o Gilmour. Ele é a forma. Mas o que eu fui ver
no Roger Waters era aquela junção de forma e
conteúdo, quer dizer, o lance que é significativo,
quem compôs, quem sofreu aquilo. E eu não sei,
pra mim foi meio ofensa o Gilmour pegar uma compositora profissional,
escrever as letras. Eu sei que, pô, pro Jobim qualquer
um pode escrever letra, quer dizer, não é bem
a viagem, mas eu sempre vi Pink Floyd por esse lado. Agora
tem gente que pode ir além de mim e ler o Pink Floyd
como uma banda do Syd Barret. Eu acho que são três
Pink Floyds legais, assim. E eu acho que aquela coisa psicodélica
envelhece mal porque hoje em dia, com a tecnologia que a gente
tem, qualquer um pode fazer loucura apertando um botão.
Não faz mais tanto sentido. Eu lembro que no Papa é
Pop a gente ficava gravando a Hora do Brasil numa fita rolo
e tinha que acertar a hora que entrava o papo da Hora do Brasil.
Eu gravava um monte de papo de pastor de igreja, cara, pra
botar aquilo...! Primeiro porque tu tinha que tirar um canal,
o guitarrista ficava puto porque tirou um canal pra botar
efeito, depois tu tinha que ficar dando play na hora certa.
Fazia um certo sentido. E no Sgt. Peppers fazia mais sentido
ainda, porque eram 4 canais. Hoje em dia, com sampler, vai
ficando tudo careta porque é muito fácil fazer
de conta que tu é louco. Então eu não
ouço tanto Sid Barret, não pega meio por isso.
Mas eu gosto da coisa do texto do Waters. Mas os caras que
eu ouço vão meio por esse lado: o Waters, o
Leonard Cohen, o Dylan, o Young, o Caetano, o Chico são
meio assim, pelo viés, do solitário, das letras,
mais do que instrumentistas. A minha própria história,
eu tava pensando: ou eu tenho síndrome de deficiência
de atenção, ou eu não dou muita atenção
à parte musical, porque se eu tivesse tocado guitarra
esses dez anos eu estaria tocando melhor, por que eu fui pro
baixo e voltei? É porque alguma coisa aí não
me conecta. Alguma coisa no tocar bem me desconecta. Eu gosto
do Lou Reed tocando guitarra, por exemplo, eu não consigo
entender muito bem isso, mas talvez seja uma deformação
de ir mais pela coisa da composição e da letra.
Os caras que são gênios musicais - pô,
eu tava brincando com o Ed Motta, mas, pô, o Jimmy Hendrix
também - eu gosto mas não é uma coisa
que eu "ahhh", como eu deveria fazer, né?
Porque eu acho uma coisa muito fácil, também,
eu acho que falta aquela...
Arthur
- É que ele meio que faz qualquer coisa. Dá
essa impressão, pelo menos...
Humberto
Gessinger - É. E eu acho que falta aquela encucação
branquela que por deformação eu tendo. Quem
gosta do rock progressivo é meio assim, né?
É meio barroco, né? Arte barroca, eu gosto de
Bach, também. É um pouquinho over the top, que
eles chamam, é um pouquinho além do que eu preciso.
Arthur
- Muito mais do que qualquer romântico ou clássico.
Humberto
Gessinger - É, pode crer. E eu gosto de perfeição,
eu fico vendo os caras... Hoje em dia é tão
fácil soar perfeito, com o Pro Tools. Engraçado,
os caras gravariam bem pra caralho e mesmo assim ainda querem
usar esse recurso, acho meio roubada.
Arthur
- Que nem você falou, cê pega os guitarristas
de IG&T, coisa assim, o cara põe uma Ibanez no
colo e faz assim: "ulululululululuululululul" [Isso
é uma onomatopéia de um solo rápido de
guitarra], puta solinho "ululu", o cara faz perfeitinho,
bonitinho, não erra uma nota...
Humberto
Gessinger - É. E o que acontece, eu fico vendo,
uma vez a gente foi tocar, a gente tava estourado, a gente
foi tocar em Cascavel, aí chegou o pai de um guri,
o guri tinha uns 5 anos, pediu pro guri tocar a bateria, o
cara demoliu a bateria do Carlos. A gente ficou olhando, mas
era nada, entendeu? Era um lance de circo, um moleque que
não alcança o pedal tocando. Cadê o drama?
Que que ele quer dizer, né? Um moleque de 10 anos não
pode tocar blues ainda, isso que eu acho. Já tens uns
guris de onze anos que são uns puta bluesmen, mas porra,
é o ensino do que já foi feito, é meio
vazio.
Rodrigo
- Você falou esse negócio do Pro Tools, que
facilitou a inserção de efeitos... eu percebo
que antigamente você fazia mais esse tipo de coisa.
É por que perdeu o romantismo?
Humberto
Gessinger - Ficou muito fácil, cara. Antigamente
tu tinha o que sobrava dos garotos da rua pra gravar. A gente
gastava metade desse tempo pra botar um efeito, era uma atitude,
cara, a gente tava dizendo alguma coisa. Hoje em dia tu aperta
um botão, aí nada fica tão importante.
Aí o que começa a ficar importante, se é
tão fácil assim? A performance, a execução.
Começa a ficar legal tocar e cantar ao mesmo tempo,
cara. Tu volta pro lance medieval, quase. Eu acho que o grande
barato do Pro Tools é analizar dessa maneira, a gente
fica mais livre. Porque pra fazer o som progressivo digital
só a geração posterior à minha
filha, que nasceu num mundo digital. Se eu for fazer aquilo
vai ser um arremedo, vou fazer o que era difícil fazer
na fita, mas aí é irrelevante fazer no Pro Tools.
Então tem que ter uma geração que venha...
todos os músicos que vieram da era analógica
pra fazer som digital é tudo puta: "Ah, legal,
comprei uma Groove Box", mas não têm profundidade.
Na geração que nasceu tocando isso vai vir o
som. A gente tem que ser mais humilde e saber o que a gente
se criou ouvindo.
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anos 80
Paulo
Roberto - O que você acha do pessoal do anos 80
que tá voltando? Magazine, RPM...
Humberto
Gessinger - Acho que geralmente quem volta é porque
faltou dizer alguma coisa, então nesse sentido é
bacana. Mas eu acho que muito pouca gente sabe ler os anos
80. No mundo inteiro o rock tava em baixa nos anos 80, aqui
se inventou que tava em alta. Eu não acho muito roquenrou
o repertório que se criou, em geral. Eu tava ouvindo
o Lobão falando outro dia numa entrevista, ele falou
18 vezes em "Me Chama". Tudo bem, é uma música
do caralho, mas não é roquenrou, né,
cara? As músicas do Legião também. Acho
que tem que ter só um pouco de cuidado ao analizar
isso como roquenrou. Eu acho que era super legal, tinha letristas
bons, atitude completamente certa... Cara, eu ganhei disco
de ouro, minha atitude foi largar a guitarra, ir pro baixo,
uma coisa inconseqüente, o Arnaldo Antunes saiu dos Titãs,
isso eu acho legal. Agora, tiveram atitudes caretas. Todo
mundo começou com nome ambíguo, né? Engenheiros...
do Hawaii, Titãs... do iê-iê-iê...
Rodrigo
- ...Ultraje a Rigor...
Humberto
Gessinger - É, Ultraje a Rigor. O Titãs
tu vê que pra ficar menos... Ou eles tinham que tirar
o "Titãs" ou o "iê-iê-iê".
Tiraram o "iê-iê-iê", então
tem gente que foi se adequando, o que eu não acho tão
legal. Quem viveu naquela confusão, que era natural
naquela geração, influenciada por MPB, influenciada
por roquenrou, acho que ainda faz coisas interessantes. Mas
tem gente que toma atitudes erradas na carreira, também,
mas que são bons artistas. Paulo Ricardo acho um
bom artista que toma atitudes erradas. Legal o RPM voltar,
mas eles estão com uma música de trabalho que
é uma balada feita por um compositor profissional.
É irrelevante, cara.
Arthur
- Parece ser um negócio tipo "Estou falindo,
preciso que voltar."...
Humberto
Gessinger - Parece, mas é...
Arthur
- Não sei.
Humberto
Gessinger - É, eu não entendo também.
Rodrigo
- É, mas é a impressão que passa.
Até porque entre você ter o disco ao vivo de
agora, que tem as mesmas músicas do Rádio Pirata
ao Vivo, dos anos 80, faz mais sentido você comprar
o disco antigo...
Humberto
Gessinger - Isso se perdeu porque se eu soubesse que eles
iriam voltar eu não teria gravado "Rádio
Pirata". "Rádio Pirata" foi legal gravar
no mesmo esquema que a gente gravou "Herdeiro da Pampa
Pobre", era uma coisa meio...
Rodrigo
- ...inesperada.
Humberto
Gessinger - Mas eles voltando, eu até acho que
eles tocam melhor que eu. Mas acho que eles têm um talento.
O Paulinho tem um talento. O Capital é uma história
bacana. Eles tiveram um sucesso... é meio Aerosmith,
entendeu, cara? Mais agora do que quando... Aerosmith era
classe C, cara, e Capital é meio paralelo, acho interessante.
Eu acho que talvez tenha mudado a visão do que se quer
de uma banda pop. Eu, sem mudar o meu som, cada vez sou mais
alternativo, sem mudar o som. Eu era pop e tô alternativo.
Daqui a uns 10 anos eu vou ser o Ermeto Paschoal, acho, porque
tudo vai mudando. Amanhã vai ter um festival que rola
em Minas. Num ano a gente foi tocar e a gente era a banda
mais leve, todo mundo fazia Heavy Metal. No ano seguinte,
sem mudar o nosso som, todo mundo tava fazendo reggae e a
gente era a banda mais pesada. A gente vai do pop pro rock
sem mudar, cara. Quando tocaram lá Skank, Jota Quest,
cara, a gente parecia o Sepultura. No ano anterior era o contrário,
tinha um monte de banda pesada e a gente parecia Sandy &
Jr.
Arthur
- E você pretende continuar levando mais ou menos
assim?
Humberto
Gessinger - É.
Arthur
- Ou vai de repente virar e falar assim: "Não,
agora eu vou fazer forró"?
Humberto
Gessinger - Não. O que eu vou fazer é abrir
agora, assim, quero fazer uns shows acústicos, violão,
gaitinha de boca, piano, pra poder reler muito lado C do disco.
Eu quero levar isso paralelo à banda.
Arthur
- Mas se você definir assim: "eu vou trabalhar
com esse repertório aqui", já não
é mais ou menos você direcionar a leitura?
Humberto
Gessinger - Não, eu quero o que o Neil Young faz,
o Neil Young tem duas vidas: ele, violão e voz e o
Crazy Horse. Eu quero criar essas duas entidades. No meio
de semana tocar pra 200 pessoas, violão e voz, gente
que tá acompanhando de perto. É que eu acho
meio arrogante... ontem a gente tocou pra - porra, na boa,
vou dizer que eram 50 mil vocês vão achar que
é mentira, mas eram - 50 mil, em Anápolis, parece
brincadeira, e eu acho que é escroto não tocar
os hits ali, se Led Zeppelin não tocar Stairway to
Heaven. Eu acho que tem que ter certa humildade. Ao mesmo
tempo eu quero seguir, eu quero tocar aquela terceira do lado
C, mas aí eu sei que é um ambiente menor, lugar
pequeno. Então o que eu tô tentando agora é
bifurcar a carreira.
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pausa
para um autógrafo
e conversa sobre cabelos
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Ronaldo
- Esse lance de ter que tocar aquela música, que
se você não tocar o pessoal vai reclamar... Lá
fora tinha um pessoal reclamando que você não
tocou "Infinita Highway". O que você acha
disso?
Humberto
Gessinger - A gente tem a sorte de apesar de não
tocar Infinita a gente tem outras, então a gente tira
Infinita, tira o Papa, mas tem outras, então dá
pra mudar. Mas é um pessoal que te acompanha mais superficialmente,
o pessoal que te acompanha via Faustão, via rádio
FM. E tem outro pessoal que é ao contrário:
se tu tocar Infinita, os caras: "Pô, quero ouvir
outra". Isso que eu quero... eu quero ter as duas coisas.
E eu sei que a tendência é eu ter cada vez menos
espaço na mídia, quer dizer, não sou
mais moleque e não tenho mais muita saúde. Eu
acho que tá ficando muito burra, tu vê a TV é
só joguinho, game, eu não tenho muita idade.
Então eu quero ficar mais resguardado e quero criar
esses dois ambientes. A coisa mais banda, criando um novo
repertório... Eu acho que a gente criou, a gente tem
muita música nova que a gente tá fazendo legal,
e ao mesmo tempo ter uma oportunidade de reler a história
toda num set mais à esquerda, mais underground. Não
sei se vou conseguir, mas a minha viagem agora é essa.
Depender menos de lance... Cara, eu tive uma reunião
agora, há duas semanas, "quando é que vão
lançar?", eu não quero nem saber, cara.
Quando eles acharem que tem que gravar a gente vai conversar,
eu vou saber se tenho música, mas eu não tenho
mais aquela angústia. Antigamente eu tinha uma música
nova, boa pra caralho, "Cara, eu preciso gravar isso,
preciso gravar". Agora se eu tenho uma música
nova eu fico me divertindo, fico mostrando pra poucas pessoas,
fica um culto, primeiro na minha casa, depois um culto entre
os amigos... Eu tenho gostado disso, não tem mais aquela
neura, sabe? São uns hits meio underground. A internet
facilita isso, tu vai meio falando à margem da grande
indústria, eu já tenho um catálogo pra
estar na indústria, então eu quero cultivar
esse lado... Não sei se as pessoas vão ter interesse
suficiente pra acompanhar isso, mas é o que eu quero
fazer.
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Rodrigo
- E o que você acha do MP3?
Humberto
Gessinger - Eu acho um grande lance, cara!
Rodrigo
- Você puxa MP3?
Humberto
Gessinger - Não, eu tive pudor até hoje.
Mas é o futuro, cara, é o futuro!
Arthur
- Você acha o artista, quando vê que não
tá recebendo pela música dele, tá sendo
prejudicado?
Humberto
Gessinger - Pra mim não é ruim, pra mim
é bom pra caralho! Porque eu tenho um canal que tá
recebendo, eu tenho uma possibilidade de fazer show. Agora,
pra banda que tá começando, eu era super entusiasta
da internet, aí um cara de uma banda que tá
começando lá no Sul, me deu um toque: "Pô,
cara, mas o problema é o seguinte: é mais fácil
gravar um disco hoje em dia, mas é mais difícil
de avisar o teu vizinho de porta que tu gravou um disco".
Divulgar. Então o cara que vai acessar vai sempre acessar
naquela parte do Guga, nunca vai acessar a página de
um tenista que tá começando. Vai acessar Engenheiros,
mas não vai acessar Cachorro Grande. Então eu
acho que tá acontecendo o seguinte: é mais fácil
de tu começar, mas é mais difícil de
tu dar o passo seguinte. Então eu não sei o
que vai acontecer.
Arthur
- Você acredita que o MP3 tenha a ver com a vendagem
do CD ou com a distribuição?
Humberto
Gessinger - Eu não sei... Pra mim é do caralho
o lance da internet, mas porque eu tenho uma história
anterior à ela. Eu não sei como uma banda faria
hoje em dia. Como é que uma banda vai avisar a mim
e a ti que tem um site? Como é que tu vai acessar?
Só quem tá muito interessado. Esse é
o grande ponto de interrogação. Eu não
sei, cara. Já não é mais rádio,
rádio tá muito burra, mas eu acho que ainda
não é internet. Acho que ainda falta um filtro
eficiente na internet que selecione e diga: "Tu quer
isso? Ouve isso.". Falta filtro. Mas a gente vai acabar
ficando na mão do filtro. Então eu te digo assim:
a gente vai chutando pra frente mas sempre vai precisar de
alguém esperto.
Arthur
- Mas é errado o cara pensar só na internet,
acaba ficando sem a parte do contato...
Humberto
Gessinger - É. Mas eu acho que a indústria
vai se encaminhar pra lá. No momento em que tiver internet
sem cabo, como um radinho, vai tudo pra lá. Agora eu
não sei, eu me lembro de quando eu era moleque eu li
um livro de um cara que estuda inteligência artificial,
tá todo mundo super otimista em relação
à internet, o cara lançou um grilo assim: "Tudo
bem, facilita. Mas a gente precisa de um denominador comum.
Se a gente perder isso...", isso ele falando em termos
gerais, daqui a 30, 40 anos. E eu me lembro de quando era
moleque, todo mundo via Ciborg no colégio, O Homem
de 6 Milhões de Dólares, e por acaso na minha
casa não pegava Ciborg. Eu chegava no colégio
e era um E.T., eu não tinha com quem falar. Eu fico
pensando se no futuro não vai ser todo mundo assim,
cada um acessando uma página só pra si. E a
gente vai ter que reaprender a se comunicar em outro nível,
talvez a gente vai ter que aprender a ouvir com o ouvido...
não ir a show só porque teve hit. Ir ao show
com o ouvido mais aberto. Talvez seja esse o lado bom, ir
ao show sem conhecer as músicas da banda.
Arthur
- Isso se sobrar espaço pra show...
Humberto
Gessinger - A performance ao vivo tá cada vez mais
valorizada.
Arthur
- É, mas acabam sendo dez mil bandas, quando antes
eram 20.
Humberto
Gessinger - Acho que as bandas vão ter que começar
a fazer sua história que nem faziam nos anos 50.
Arthur
- Mais na ralada, né?
Humberto
Gessinger - No show ao vivo. Hoje em dia tu ouve cada
coisa do caralho no disco, tu vai no show, dá vontade
de cobrar as duas horas que tu perdeu. Então eu tendo
a ver com esse olho otimista, que vai valorizar a coisa da
performance. Que nem mágica, nada acaba com o mágico,
e é uma coisa que tem muito a ver.
O site
oficialmente não-oficial dos
Engenheiros do Hawaii é www.enghaw.com.br
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Não
tocaram
"Infinita Highway"?
Não faz mal, a gente faz
uma rodinha
após o show e canta.
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