Os anos 80 foram marcados por uma grande tensão mundial, onde o capitalismo se armava para sua batalha final contra o grande inimigo vermelho, Dolph Lundgren, que foi inúmeras vezes derrotado por Rocky Balboa e encarnações de Schwarzeneggers e Van-Dammes. Enfim, um prato cheio para os artistas que têm um mínimo de compromisso social, que gostam de basear a arte e a música num sentimento de mudança para melhor. É o Queen, é o Floyd e sua grande parede com porcos e crianças loucas, é o Scorpions. Eu, criança, ouvia isso tudo direto do rádio, como se hoje ouvisse o Charlie Brown (que, aliás, no Peanuts ele sempre foi o fracassado da turma), misturado com lambada, Michael Jackson, Toto, etc. Mas não é isso que faz os Anos 80 do século 21. O remake que se está procurando hoje é o baseado naquele movimentozinho gótico, aquela bobalhada de Joy Division, The Smiths, The Cure.... Esses caras eram pequenos em relação a todo o mundo. O New Wave não era isso. O New Wave era o hard-rock, era o dance eletrônico, era o house music em vinil, era o Cid Guerreiro fritando guitarra no disco da Xuxa.
Defesa antes do ataque: Falo de Xuxa e Lambada com as memórias de criança, mas não porque era isso que mais me importava. Simplesmente porque, a idéia de fazer música comercial para o público infantil foi valorizada somente nessa época, e até os velhinhos de hoje lembram do Gengis-Khan e do Trem da Alegria.
No rock´n roll, a década de 80 foi marcada pelo aproveitamento máximo da virtuose e da extrapolação da forma, somados à uma qualidade sonora nunca vista até então. Gravações limpas, efeitos maravilhosos e totalmente estereofônicos, era o Van Halen, o Peter Frampton, o Alan Parsons, esses caras modificavam a idéia de como se ouvir música. Os vídeo-clipes começaram a ter um papel muito mais importante. Dio, Iron Maiden, esses caras traziam consigo uma fúria jamais vista. Talvez inútil, talvez de um conteúdo muito mais visual e performático do que intelectual, bem como Nelson, como Whitesnake, mas isso era a verdade da época: Podemos comprar tudo de mais caro para tocar pro mundo inteiro ouvir.
O mundo inteiro. Mesmo sem internet, mesmo sem tantos satélites, o mundo inteiro se sentia interagido nesse universo. Já o tal movimento gotiquinho, cabelo lambido, cara de triste, Smiths e outros supracitados, traziam consigo uma introspecção que não fazia parte do mundo pré-globalizado, apesar de fazer um certo sucesso, mas que hoje até que pode fazer sentido. E é por isso que buscam isso muito hoje. Mas não é essa a essência dos anos 80. Não foram eles que inovaram nada. Eles só influenciaram os que destruíram com drogas pesadas e pouca música o que ainda restava do rock.
Acho que isso mostra o seguinte: estamos entrando numa Nova Baixa Idade Média. Um novo período de trevas, mas não pela ausência de arte, mas ausência de conteúdo e de porquê. As pessoas precisam consumir, mas o quê? É difícil saber que horas são exatamente, quando você tem no pulso cinco relógios diferentes.