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livro Tropicália, a história de uma revolução musical
Carlos Calado
Editora 34
ano: 1997

Usando de um reducionismo irresponsável mesmo, mas não de todo ilógico em seus termos, pode-se afirmar que quando artistas de uma determinada "categoria" (aqui significando músicos, atores, poetas, por exemplo) - ao longo de um período "qualitativo" de tempo - expressam-se na sua maneira individual, mas com concepções téorico-estéticas construídas sobre os mesmos pilares, fazem parte de uma determinada "escola" ou, mais comumente, "movimento".

No caso de uma "escola normal", esse embasamento teórico-estético é traduzido numa espécie de cartilha programática, um retrato das formas e conteúdos valorizados e retratados no trabalho dos seus integrantes nas mais variadas e individuais expressões, mas sempre meio que dentro daquele roteiro (os impressionistas, os cubistas, mais "modernamente" os bossanovistas por exemplo).

Nada disso é válido quando a "escola" em questão é o Tropicalismo, o anti-movimento, a anti-escola, ou todas-as-escolas-ao-mesmo-tempo-agora.

Explica-se: pegue 2 quilos de bossa nova, junte 5 quilos do brega nativo de então (incluindo bolero, samba-canção, marchinhas de carnaval e cantores hipermelodramaticoperísticos do quilate de Vicente Celestino); adicione 1 quilo da vanguarda erudita da época (Rogério Duprat, Julio Medaglia, dentre outros), depois jogue - atrás, em cima, embaixo, entre... - Sgt. Pepper´s, Terra em Transe, Jules e Jim, Manifesto Antropófago, Concretismo, Hélio Oiticica, Zé Celso, Jovem Guarda, Chacrinha, Carmem Miranda & bananas & guitarras e uma pitada de ácido, bata tudo no liqüidificador e despeje na "cabeça" de um país em pré-coma político e que, apesar da Bossa Nova, ainda tinha como padrão estético o formalismo de crooners de smoking e cabelos gomalinados.

Rachou o concreto, intelectuais, políticos & movimento estudantil... mas não os "hombres", que tentaram abater a navilouca em pleno vôo com um artefato chamado AI-5. Acabaram nocauteando o país, mas não o legado do Tropicalismo que ainda hoje se faz sentir na música de Chico Science, Beck, Carlinhos Brown, Sean Lennon e Chico César (sim, a Tropicália tem uma parcela de culpa por "isso"!).

O autor já havia visitado o Tropicalismo, ainda que pelo viés mais específico, contando a (possível) "história" dos Mutantes (no também excelente e altamente recomendado livro "A divina comédia dos Mutantes", Editora 34, 1995), mas em "Tropicália, a história de uma revolução musical", o excelente Carlos Calado esquadrinha o (anti) movimento de maneira enxuta, delineando um painel histórico que contextualiza o aparecimento de artistas revolucionários como os próprios Mutantes e Tom Zé, dando uma dimensão coesa mas abrangente do que representou essa escola calidoscópica multimídia à época e ainda hoje, tudo numa linguagem acessível, fluida, amigável, tornando o livro um excelente entretenimento para quem curte Música brasileira.

Não perca!

 

28*7*2003

Guilherme Rodrigues
Colaborador de Vitória - ES

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